Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!
Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Resenha de Filme - Abutre

Abutre. Peripécias De Um Cinegrafista Amador.
Um filme muito curioso está nas telonas. “Abutre” é estrelado por Jake Gyllenhaal (eta nomezinho complicado!!!) e conta a história de um ladrãozinho que rouba telas de cercas e tampas de bueiro para sobreviver. Seu nome é Louis Bloom e já sabemos logo no início da história que nosso protagonista tem uma péssima índole. Ele não passaria de um vigarista de meia tigela não fosse o fato de que ele presenciou um acidente na estrada enquanto dirigia seu automóvel ordinário. Parando para ver o acidente, ele presenciou o trabalho de um cinegrafista amador freelancer, Joe Loder (interpretado por Bill Paxton), que vendia as imagens para os telejornais locais de Los Angeles. O punguista logo se interessa pelo ofício e com seu dom para atividades ilícitas, ele  consegue uma câmera e um rádio que sintoniza a frequência da polícia. No início, nosso protagonista não consegue fazer seu trabalho de forma eficiente. Mas a grande virtude de Louis é que ele aprende rápido e rapidamente consegue vender uma filmagem de uma vítima de assassinato agonizando para uma responsável pelo telejornal noturno de um canal de televisão, Nina Romina (interpretada por uma envelhecida, mas ainda deslumbrante Rene Russo). A mulher não tem escrúpulos e quer colocar as piores reportagens para conquistar audiência, do tipo daquelas que você espreme e sai sangue. Assim, os interesses de Louis e de Nina juntam a fome com a vontade de comer. A esperteza de Louis fará com que ele venda mais e mais imagens, tornando-se um cara com bastante grana. Mas isso não será o suficiente para ele. Louis também vai querer mais espaço na emissora de TV e irá usar sua inteligência e falta de caráter para atingir seus objetivos.
O filme realmente tem uma reflexão central que é a questão da ética no telejornalismo. Louis é o ladrãozinho sem qualquer remorso ou boa índole que vai se encaixar como uma luva no meio do telejornalismo cujos programas sensacionalistas muitas vezes jogam o bom senso no lixo em busca de uma maior audiência, o que significa mais dinheiro e extensão dos contratos de trabalho. A desgraça alheia serve como combustível para alavancar o sucesso das carreiras de pessoas inescrupulosas. A coisa chega a um ponto em que elementos como Louis forjam imagens e, mais grave, criam situações que até provocam a morte dos outros. E essas pessoas saem completamente incólumes disso. O personagem de Louis é emblemático. O protagonista é o anti-herói americano. O cara não tem qualquer escrúpulo e quando faz as suas armações se dá bem. O filme viola totalmente aquela moral americana de que o vilão se dá mal. É uma trama que parece gritar contra uma horda de canalhas que povoam nosso mundo real e se dão bem com suas armações nas nossas barbas. A maldade de Louis é agressiva, repulsiva, temos raiva do sujeito, como se o diretor do filme, Dan Gilroy, que também escreveu a história, desse um tapa em nossas faces bradando horrendamente que esse tipo de pessoa existe na vida real e está à solta por aí fazendo suas canalhices. O filme acaba sendo um grito inconformado contra tais absurdos.

Portanto, podemos dizer que “Abutre” não se enquadra no cinema de entretenimento, mas sim no cinema de denúncia, no cinema de reflexão, onde nos é lembrado que existem pessoas por aí que não medem esforços em alcançar suas ambições, mesmo que suas ações prejudiquem a vida de outras pessoas. Pessoas totalmente sem escrúpulos que inspiram escritores como Thomas Hobbes a escrever tudo aquilo que é visto em “O Leviatã”, ou seja, os governos devem ser autoritários, pois precisam controlar a desmedida ambição humana. Afinal de contas, “O Homem é o lobo do Homem”. Você concorda ou não??? Democracias são importantes, mas definitivamente não podem permitir o mau caratismo.


 
Cartaz do filme em inglês.



Um carinha que não presta.



Um cinegrafista amador em busca de desgraças.



Com Nina, ele vai ter oportunidades de crescimento.


Quando não consegue o que quer, vira bicho.


Ele não medirá esforços para alcançar suas ambições. 


Um verdadeiro safado!!!!!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Resenha de Filme - Elsa e Fred

Elsa E Fred. Filme De Dois Atores.
Mais um remake nas telas. O bom filme “Elsa e Fred” é inspirado numa versão mais antiga argentina e que se passa dessa vez em Nova Orleans. A história gira toda em volta de um casal já na terceira idade e se apoia inteiramente nas excepcionais atuações de Christopher Plummer (o eterno klingon Chang de “Jornada nas Estrelas VI, a Terra Desconhecida”) e a veteraníssima Shirley McLaine, uma atriz que não tem aparecido muito e a sua presença sempre é bem vinda. McLaine é muito lembrada por suas experiências místicas de alguns anos atrás, estando muito em voga naquela época (meados da década de 1980). Assim, suas aparições sempre servem para que matemos saudades.
E como Elsa e Fred se conheceram? Eles eram vizinhos e Elsa acertou o carro do genro de Fred, para desespero da filha de Fred, Lydia (interpretada por Marcia Gay Harden). Elsa promete entregar um cheque de seu filho, Raymond (interpretado por Scott Bakula, o capitão Jonathan Archer da série Enterprise, esse filme é um prato cheio para os trekkers de plantão!), na casa de Fred para os reparos do carro. Nosso Fred é um personagem extremamente rabugento e desgostoso da vida. Ele perdeu a mulher há sete meses e a foto da esposa com um semblante pesadíssimo é uma dica de que o casamento de Fred não foi lá essas coisas. Elsa, por sua vez, se interessa por aquele ogro durão e tenta se aproximar dele. Já sabemos de antemão que ela conseguirá. Mas a graça, como sempre acontece nessas histórias, está nos percalços.
Qual é a grande virtude de Plummer? A rabugice de Fred dá a ele a oportunidade de fazer muitas observações sarcásticas que são bem hilárias. Mas Plummer também sabe ser bem elegante, alegre e refinado nos momentos certos. Já McLaine tem a sorte de fazer uma Elsa espalhafatosa, alegre, bem-humorada, mas muito, muito garganta, algo que irrita Fred profundamente. A capacidade de Elsa de inventar histórias é ilimitada e Fred quase nunca consegue saber o que é verdade e o que é mentira, ponto principal do conflito do casal.
O filme tem um detalhe muito especial, sob medida para os cinéfilos mais apaixonados. Elsa é totalmente fissurada em “La Dolce Vita”, de Fellini, sobretudo a sequência de Anita Eckberg e Marcelo Mastroianni na Fontana de Trevi, em Roma. Trechos dessa sequência são exibidos no filme no belo preto e branco de anos atrás e nos colocam numa viagem no tempo, carregada de nostalgia. O nosso casal protagonista inclusive reproduzirá a cena felliniana numa viagem à Itália comprada por Fred. Destaque especial deve ser dado ao ótimo trabalho de montagem neste trecho da história, onde tomadas em preto e branco de Elsa e Fred se mesclam com as tomadas de Eckberg e Mastroianni em “La Dolce Vita”. Momentos de pura poesia e emoção que valem o ingresso. Mas chega de spoilers!

O que podemos falar mais aqui, a título de conclusão, é “Elsa e Fred” foi, nas palavras um tanto preconceituosas do diretor Michael Radford (o mesmo de “O Carteiro e o Poeta”), tornado mais sofisticado para o público americano, se comparado com a versão original argentina. Confesso que não vi a versão original, mas soa um pouco inconsequente achar uma plateia americana mais sofisticada que uma plateia argentina, por exemplo. No fim das contas, tudo é mais uma questão de leitura, feita de acordo com necessidades mais mercadológicas, talvez no caso do cinema americano. À despeito das exigências de um público A ou B, dizemos com segurança que Christopher Plummer e Shirley McLaine cumpriram seus papéis com maestria e nos hipnotizaram com suas fortes personalidades magnéticas. Apesar de previsível em alguns pontos, como acontece geralmente nas histórias de amor, “Elsa e Fred” não deixa de ser um bom entretenimento e vale a pena ser visto. Filme em que a grande vedete são os atores e não efeitos especiais. Típico filme em que a gente vai para “ver os caras”. Apologia total ao star system, numa forma mais gostosa e menos pasteurizada de ser fã. Que bom que ainda haja filmes nesse formato!

Cartaz do Filme



Elsa quer novas alegrias para sua vida.



Fred tenta sair da tristeza da viuvez.


Um buscará apoio no outro.



Linda cena na Fontana de Trevi. 



Elsa e Fred originais. Menos sofisticados???
 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Resenha de Filme - Caçada Mortal

Caçada Mortal. Bom Thriller Policial.
Bom filme no cinema para quem gosta de suspense e ação. “Caçada Mortal”, estrelado pelo bom e versátil Liam Neeson, conta a história de um ex-policial que se aposentou após cometer um erro que custou a vida de uma garotinha. Aposentado, ele passou a ser uma espécie de investigador particular. Ele foi contratado por um traficante de drogas que teve a sua esposa sequestrada e morta mesmo depois de o resgate ter sido pago. Assim, nosso protagonista começará a seguir uma série de pistas para chegar aos assassinos que acabam com suas vítimas de uma forma extremamente desumana e macabra.
Apesar do tema pesado, a trama não é violenta na maioria do transcorrer da película, onde o derramamento de sangue e os tiroteios costumeiros de filmes como esse só ocorrem mais ao final. A maioria do tempo do filme se dedica a montar o quebra-cabeça para se chegar aos assassinos, estabelecendo paralelos entre a morte da mulher do traficante e outros crimes cometidos pela dupla de assassinos. Uma investigação muito bem conduzida pelo personagem de Neeson, onde cada detalhe dos homicídios relatados ao longo da história podem ter uma ligação. A montagem desse quebra-cabeça já indica que o filme teve um bom roteiro, que prende a atenção do espectador do início ao fim. Essa, definitivamente, é a grande virtude do filme.

No mais, o filme gira em torno de Liam Neeson e sua boa atuação, onde parece que ele é cercado por um mar de coadjuvantes. Realmente o homem carrega o filme nas costas com o seu nome e prestígio. Mas isso não significa que a história seja ruim. Pelo contrário, ela é muito boa pelas razões já descritas acima. Assim, apesar de o filme não trazer uma mensagem ou uma reflexão mais profunda, a trama acaba provocando no espectador um exercício de reflexão, em virtude da elucidação do mistério que é encontrar os assassinos. Não deixa de ser um bom programa.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Resenha de Filme - Homens, Mulheres e Filhos

Homens, Mulheres E Filhos. Todos Neuróticos.
Um filme americano sobre as relações contemporâneas, regadas com os vícios provocados pelas redes sociais. Essa é a melhor síntese de “Homens, Mulheres e Filhos”. Volta e meia o tema das dificuldades encontradas nos relacionamentos humanos bate à porta do cinema. E essa película é uma prova disso. Os mesmos temas de sempre: dificuldades no casamento, de pais para com os filhos, de crises na adolescência. Mas dessa vez com um agravante: a internet é usada como uma ferramenta que amplifica essas dificuldades e crises. Não que a ferramenta seja a culpada da crise em si, mas sim o mau uso dela.
Vários são os exemplos das neuroses encontradas nos seres humanos do filme. A mãe hiperprotetora que monitora todos os movimentos da filha na internet, a menina anoréxica e insegura que fantasia o primeiro beijo com o amigo de infância, a menina que quer virar uma estrela e acaba sendo apoiada incondicional e doentiamente pela mãe por isso, o casal entediado que busca novas experiências sexuais, o pai e filho que são abandonados pela esposa e mãe que tem um amante, etc. Todas essas pessoas têm algum abalo psicológico em algum grau e parecem inteiramente perdidas em suas atitudes. São pessoas absolutamente frágeis e que, muitas vezes, prejudicam e machucam outras em sua fragilidade. E o mau uso da internet ajuda a amplificar isso. Essa ferramenta é usada pelo casal entediado, por exemplo, em sua mútua traição. A mãe que muito protege evita que a filha tenha uma vida social ao monitorar toda a internet, numa prova de que o uso da internet em demasia está afetando cada vez mais os relacionamentos. O menino abalado com a fuga da mãe com o amante não quer mais saber de jogar no time de futebol americano e recebe ameaças anônimas pelo Whtasapp, ao mesmo tempo que se fecha ao mundo passando horas no videogame. Seu único contato com o mundo real é através da paixão que nutre com a filha superprotegida cuja mãe bloqueia a comunicação entre os dois, provocando dor no garoto, já que ele fica pensando que a menina nada mais quer com ele. Definitivamente, uma ferramenta como a internet, que deveria trazer benefícios acaba trazendo malefícios em virtude do uso que as pessoas fazem dela.
Um detalhe muito interessante da história é o paralelo que é feito entre o desenrolar da vida dos personagens e a viagem da sonda Voyager até os confins do sistema solar. Enquanto as pessoas se magoam aqui na Terra, a Voyager viaja pelo espaço de forma cândida e calma, levando o disco de cobre banhado a ouro com informações sobre a raça humana e com um texto de Carl Sagan que fala sobre como estamos sozinhos nesse pálido ponto azul que é a Terra e que, as enormes distâncias do espaço fazem com que fiquemos ao fim das contas sozinhos. Logo, temos que ser gentis com nós mesmos e nossos semelhantes. Ou seja, algo que já falei em outras resenhas: somos humanos, somos frágeis, temos nossos medos e, no fim de tudo, temos apenas a nós mesmos para nos apoiar uns aos outros. A humanidade, na melhor acepção do termo, está no sentimento de solidariedade e preocupação com o próximo, algo que fazemos cada vez menos, e isso ameaça o nosso bioma e a nós mesmos. Carinho e compreensão com a fragilidade do próximo, essa devia ser a nossa maior compreensão. O filme é cheio de crises e desencontros, cheio de falta de compreensão, que pouco a pouco brota num terreno estéril e árido de egoísmo e discórdia.
O filme também conta com um bom elenco: Jennifer Garner, Adam Sandler (isso mesmo, num papel dramático!), J. K. Simmons, Emma Thompson (como narradora), Ansel Egort (um dos protagonistas de “A Culpa é das Estrelas”). Muitas carinhas novas também, por se tratar de um filme com muitos adolescentes em crise. De qualquer forma, rolou uma química boa entre os personagens.

Dessa forma, apesar de “Homens, Mulheres e Filhos” ser mais um filme que aborde o tema da dificuldade das relações humanas, desta vez duas reflexões interessantes apareceram: como o uso da internet pode amplificar tal dificuldade e a preciosidade e sabedoria do texto de Carl Sagan sobre o que é ser humano quando se está sozinho no Universo em virtude das grandes distâncias. E a Voyager continua viajando pelo espaço, apesar de tudo...


Cartaz do filme


Uma mãe que rastreia todos os passos da filha


Um casal em busca de mais diversão


Um marido abandonado tentando esquecer o passado


Uma anoréxica querendo realizar um sonho de infância


Um menino que sofre com o abandono da mãe


Uma menina que quer ser uma estrela e um menino que não sabe transar...

Um casal fofo e neurotizado


E a Voyager segue placidamente em seu curso

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Resenha de Filme - Um Amor de Vizinha

Um Amor De Vizinha. Mais Um Simpático Filme De Atores.
Mais uma historinha água com açúcar. O simpático filme “Um Amor de Vizinha” é estrelado por Michael Douglas e Diane Keaton, servindo justamente para matarmos a saudade desses dois bons atores nas telas. Temos aqui a história do corretor de imóveis Oren Little (interpretado por Douglas), que é um homem muito insensível desde que perdeu a esposa. Ele tenta vender a sua grande casa para vários casais, todos vistos de uma forma estereotipada pela sociedade americana: asiáticos, negros, latinos. Isso serve como um argumento para Oren destilar toda a sua antipatia e preconceito e ficarmos mais hostis a ele. Enquanto nosso mal humorado personagem tenta vender sua casa, ele mora numa pequena casinha de um conjunto de residências do qual é dono, tripudiando de seus inquilinos com sua aspereza. Mas sua vizinha, Leah (interpretada por Keaton) é, como o próprio título do filme em português diz, um amor (a propósito, o título original é “And So It Goes”). Ela também é viúva e ainda não se conforma com a perda do marido. Para esquecer e ter uma fonte de renda, a senhora inicia uma carreira de cantora de bares. Mas ela sempre se debulha em lágrimas, pois só usa músicas que lembram de seu marido no repertório. Oren e Leah vão se aproximar depois que o filho de Oren deixa a sua filhinha Sarah (interpretada por Sterling Jerins) com o pai porque vai passar uma temporada na prisão. Oren, de coração de pedra, deixa a pequena Sarah aos cuidados de Leah por uma noite, algo que a senhora não vai recusar. A partir daí, já sabemos como a coisa continua.
Definitivamente, é um filme que não acrescenta em nada. É uma fórmula muito batida já vista muitas vezes. Serve somente para dar uma perspectiva otimista da vida, a ideia de que sempre podemos recomeçar e ter uma vida amorosa e feliz na terceira idade, algo que nem sempre se repete na vida real. Por isso mesmo, a gente sai com a cabeça levinha do filme. Uma higiene mental, eu diria. De interessante mesmo, só Michael Douglas fazendo um velho rabugento que redime seu coração e uma doce Diane Keaton que, apesar do passar do tempo e por sua carreira pregressa, sempre vai parecer uma jovem senhora. Sua alta emotividade soava como algo triste em alguns momentos e como algo engraçado e caricato em outros. Tudo se pauta e se apoia nesses dois atores. De qualquer forma, apesar do tema batido, se você gosta desses dois atores que já não aparecem tanto nas telas (tem chegado por aqui muitos filmes com carinhas novas), vale a pena dar uma conferida. Mas não espere muito. Puro entretenimento apenas.

Cartaz do filme




Um corretor de imóveis rabugento.



Uma melancólica cantora de bares. 



Simpático par romântico da terceira idade.


Uma netinha aparece do nada.


E essa netinha aproximará ainda mais o casal.


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Resenha de Filme - Jogos Vorazes, A Esperança Parte 1

Jogos Vorazes, A Esperança, Parte 1. Futuro Repleto De Alegorias Do Passado.
Eu confesso que não conheço muita coisa de “Jogos Vorazes”. Sei que é inspirado num best-seller teen, que já estamos no terceiro filme (eu não vi o primeiro, mas vi o segundo) e que fala de um futuro onde há um lugar chamado Panem com um governo central numa capital e há uma divisão em doze distritos totalmente subjugados pelo poder central. Os tais jogos vorazes seriam batalhas de morte entre adolescentes escolhidos aleatoriamente (dois por distrito) para entreter a população num verdadeiro espetáculo televisivo. Num desses distritos, a irmã de uma das escolhidas, Katniss (interpretada por Jennifer Lawrence), se oferece como voluntária para protegê-la. Katniss terá a companhia de Peeta (interpretado por Josh Hutcherson), por quem se envolve emocionalmente. No segundo filme, o casal de jovens já é visto como uma ameaça ao poder da capital. Num primeiro momento, a coisa não me interessou. Achei o segundo filme um tanto exótico, principalmente nos figurinos da elite da capital. Exotismo perfeitamente explicável como veremos abaixo. Como eu vi esse segundo filme, me incumbi de ver a continuação, que saiu recentemente nas telas, sem muita esperança de ver algo que prestasse. Ledo engano. “Jogos Vorazes, a Esperança, Parte 1” é um filmaço, já que a história sai das arenas e do establishment do governo da capital, tornando-se uma verdadeira guerra civil. Há um décimo-terceiro distrito que se rebela contra a capital e Katniss torna-se uma espécie de símbolo da rebelião. Peeta, por sua vez, fica em poder da capital. Há um atroz duelo de mídia, onde tanto Katniss quanto Peeta são usados como ícones pelos dois lados. Esse duelo mídiatico é um aspecto muito interessante da historia, pois vemos isso como uma parte de nossa realidade, onde ícones são produzidos de forma artificial pela mídia todos os dias. Nosso mundo está cheio de celebridades que são fabricadas e que simplesmente desaparecem quando não interessam mais a quem as cria. Peeta e Katniss são exatamente a manifestação disso. São ídolos criados em estúdio, editados de acordo com os interesses de quem os manipulam, sejam os vilões da capital, sejam os mocinhos do 13º distrito. Ambos os lados usam as mesmas armas midiáticas, algo visto hoje em dia tanto nos governos capitalistas ocidentais quanto em grupos terroristas. A visão da guerra de informação contemporânea se materializa neste best-seller juvenil. O mais curioso é que o filme tem uma postura crítica com relação a essa guerra midiática, pois as melhores tomadas de Katniss e que fazem mais sucesso junto ao publico são aquelas em que a moça se manifesta espontaneamente, seja quando ela canta na beira do rio uma canção de resistência (mesmo que ela tenha sido editada) ou quando presenciamos suas palavras sinceras de indignação e revolta ao ver um hospital incinerado por forças aéreas da capital. Outra crítica ao contexto midiático reside justamente no exotismo e extravagância mencionados acima, com os figurinos exagerados fazendo parte do espetáculo de entretenimento, onde nem o presidente Snow (interpretado pelo excelente Donald Sutherland) escapa.
Mais um aspecto interessante da trama reside na violência imposta pela capital aos distritos, onde execuções são transmitidas ao vivo e pilhas de cadáveres carbonizados se acumulam em distritos destruídos. Alusões claríssimas a muitos momentos de nosso passado, indo desde a truculência dos reis absolutistas do Antigo Regime, que matavam e esquartejavam publicamente quem se revoltava contra o rei, passando pelas execuções transmitidas pela TV e em praças públicas que até hoje acontecem em alguns países, e chegando aos campos de extermínio nazistas ou às vítimas das bombas atômicas da Segunda Guerra Mundial, sem esquecer dos massacres em países subdesenvolvidos acometidos pela guerra fria como o Camboja, onde o governo do Khmer Vermelho assassinou populações inteiras, com esqueletos encobrindo leitos de rios. Os próprios jogos vorazes são uma reedição da política de pão e circo da Roma Antiga, onde os espetáculos de gladiadores em batalhas até a morte eram o principal meio de diversão da população para que ela não se revoltasse contra os imperadores. Como podemos ver, a saga “Jogos Vorazes” torna-se uma compilação de muitas coisas que vemos em nosso mundo real com o passar dos anos, confirmando aquela máxima de que “ninguém é filho de chocadeira”. Na velha tensão entre paráfrase e polissemia, vem a certeza de que “para se falar algo novo, temos que repetir algo velho primeiro”. Assim, Panem nada mais acaba sendo que um decalque de nosso mundo real, tanto do presente quanto do passado. As revoltas dos distritos contra os guardas da capital são outro elemento que chama a atenção, pois nos lembram também de movimentos revolucionários e lutas pela liberdade no passado, onde muitas pessoas sacrificaram suas vidas em nome de uma causa. E o filme exibe o massacre de revoltosos de uma forma nua e crua.
A trama também se ampara num grande elenco. Nomes como Jennifer Lawrence, da nova safra de queridinhos de Hollywood, são acompanhados por medalhões como Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman (sempre ele!), Woody Harrelson e Julianne Moore. Vou sempre defender aqui a tese de que blockbusters acabam tendo mais credibilidade com a presença desses medalhões, embora esse mais recente “Jogos Vorazes” não dependa tanto dos mirabolantes e computacionais efeitos especiais, pois tem uma boa trama para contar.

Assim, a grande diversão de “Jogos Vorazes, a Esperança Parte 1” fica por conta de identificar todos esses elementos mencionados acima e perceber de quais fontes as situações do filme foram extraídas. Ah, e ainda haverá a continuação, pois tais filmes sempre terminam em aberto, o que deixa a gente sempre ansioso para continuar a assistir.

Cartaz do filme

Katniss perplexa com os feridos do hospital.


Atacando a força aérea da capital.

Peeta sob o domínio do Presidente Snow

Julianne Moore como a Presidente Coin.


Peeta parece estar dividido.


Figurinos altamente exóticos. Espetáculo televisivo.


Mais uma vez Philip Seymour Hoffman dá o ar de sua graça. 


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Resenha de Filme - MIchael Kohlhaas

Michael Kohlhaas. No Interior Da Cultura De Antigo Regime.
Um excelente filme histórico chega às telas. “Michael Kohlhaas” tem a Europa do século 16 como pano de fundo e conta com a presença do muito competente ator dinamarquês Mads Mikkelsen (“007, Cassino Royale”, “A Caça”, “O Amante da Rainha”) no papel principal. A produção do diretor Arnaud des Pallières tem a grande virtude de nos mostrar alguns aspectos da cultura do chamado “Antigo Regime”, onde o poder da nobreza feudal já havia criado os chamados governos absolutistas, com reis que tinham uma quantidade de poder absurda, sendo legitimada por Deus, segundo as religiões cristãs vigentes naquela época. Grandes fazendeiros chamados senhores feudais ou nobres eram engalanados com títulos de nobreza como barões e duques, mantendo a sociedade muito desigual e extremamente autoritária. Nosso protagonista, Michael Kohlhaas, é um pequeno proprietário numa parte da Europa supostamente de maioria protestante e fragmentada politicamente, onde cada senhor feudal é um príncipe de uma extensão menor de terra se comparada a Estados Nacionais mais consolidados na época como Portugal e Espanha. Ele cria cavalos e vende os animais. Mas, ao ter de passar pelas terras de um barão, ele precisou pagar um pedágio considerado ilegal e teve que deixar dois de seus cavalos como garantia, que foram usados em trabalho muito pesado, ficando muito sujos e machucados. Michael entrou na justiça, mas o barão mexeu os pauzinhos e tornou sua ação judicial improcedente. A mulher de Michael, Judith (interpretada por Delphine Chuillot) procurou interceder em favor do marido junto à princesa local, mas foi assassinada ao tentar chegar perto da jovem monarca. Tal atitude despertou a ira de Michael, que arregimentou um exército de camponeses e saiu fazendo justiça com as próprias mãos na região.
Como já foi dito aqui, vários aspectos da sociedade de Antigo Regime aparecem aqui neste filme. Em primeiro lugar, a injustiça da sociedade feudal, onde senhores poderosos com títulos de nobreza tratam os menos favorecidos de forma acachapante e usam a sua influência para se beneficiar em situações desfavoráveis, baseando-se numa prática clientelista muito corriqueira naquela época. O barão que prejudicou Michael usou claramente dessa prática clientelista (de troca de favores) para se defender da ação na justiça de nosso protagonista contra ele. Em segundo lugar, a questão da revolta camponesa. Embora muitos servos nos feudos não tomassem qualquer atitude contra a exploração dos senhores feudais, outros servos realmente se revoltaram, mesmo sob as advertências da Igreja de que tais levantes levariam suas almas ao inferno. A revolta de Michael é um espelho de revoltas que ocorreram no passado, mostrando que, apesar do grande poder dos senhores, havia sim um questionamento contra a autoridade deles, mostrando que a sociedade de Antigo Regime nem sempre era tão “cordial” assim. Em terceiro lugar, a excessiva religiosidade da época, que está representada no personagem de Michael, pois ele titubeia em atacar uma cidade quando um teólogo (interpretado por Denis Lavant) começa uma argumentação com nosso protagonista dos rumos da revolta e dos motivos dela. Esse teólogo irá justamente exigir que o revoltoso deponha as armas para ter a sua alma salva, um argumento muito usado contra quem pensava em se levantar contra a ordem vigente. A personagem da princesa (interpretada por Roxane Duran) é outro elemento muito interessante e curioso. Esteticamente falando, sua bela face nos lembra as pinturas de retratos de membros das dinastias europeias existentes no Museu do Prado em Madri. A princesa, ao se encontrar com Michael, também vai lembrá-lo que um líder deve não ser apenas temido, mas também deve ser amado pelo seu povo, tal como foi escrito por Maquiavel em seu livro “O Príncipe”, no capítulo 13.

Não é todo dia que o cinema produz um filme que aborde com maestria questões históricas. Mesmo que o final tenha sido inverossímil para a realidade da época, “Michael Kohlhaas” ainda é uma boa vitrine para exemplificar em algum nível como era a sociedade de Antigo Regime. É um filme contido, mas de emoções fortes. Uma película que deve ser examinada com atenção pelo espectador, sendo uma forma de entretenimento altamente inteligente.


 
Cartaz do filme


Um mercador em busca por justiça


Com a esposa Judith


Ele negocia cavalos.


Ele terá a sua esposa assassinada injustamente


E irá liderar uma revolta camponesa.


Uma princesa saída dos quadros do Museu do Prado.


A filha Lisbeth passará por uma série de provações com o pai.


Silhueta melancólica...

domingo, 14 de dezembro de 2014

Resenha de Filme - Setimo

Sétimo. Thriller No Condomínio.
Ricardo Darín está de volta na ótima película argentina “Sétimo”. Desta vez, o estimado ator faz um advogado de nome Sebástian, recém-separado de sua esposa Delia (interpretada por Belén Rueda), já que o nosso protagonista é um mulherengo incorrigível e a traiu com a melhor amiga da esposa. Sebástian tem uma audiência imperdível, pois ela dará bastante dinheiro para a agência de advogados em que trabalha. Mas, antes disso, levará seus filhos ao colégio. Ao descer de elevador, o pai aposta uma corrida com as crianças, que descem de escada e... desaparecem. Começa todo um thriller cujas cenas são mais centradas no prédio em que moram as crianças, apesar do filme também mostrar outras locações. Sebástian e Delia, desesperados, vasculham todo o prédio em busca das crianças que, aparentemente foram sequestradas. E o inimigo pode estar mais próximo do que se pode imaginar...
“Sétimo” segue a tradição dos bons filmes argentinos, que sempre nos impressionam pelo bom roteiro escrito e pela boa atuação de seus atores. Darín é como um vinho ou whisky que só melhora com o tempo. Falar bem de seu trabalho já praticamente se tornou chover no molhado. Seus lampejos de descontrole emocional, desconfiando de tudo e de todos no sequestro das crianças, fazem sua interpretação ser bem vigorosa. Nesse filme, o grande ator aparece sem barba e com o cabelo pintado, ficando com uma aparência mais jovem. Belén Rueda também nos brinda com uma boa atuação, mais contida que a de Darín, até pelas exigências do roteiro (sem spoilers, povo). E também devemos fazer aqui um destaque a presença de Osvaldo Santoro, o policial Rosales, que vive no prédio, e que desperta as suspeitas de Sebástian.
Apesar do filme se passar a maioria de seu tempo dentro do prédio em que desaparecem as crianças, já foi dito que outras locações são utilizadas, com destaque todo especial para as paisagens de Buenos Aires, lindíssimas, sobretudo as noturnas, utilizadas mais ao final do filme. Se fizermos uma comparação com a filmografia recente de Darín, pode ser também mencionado que “Sétimo” difere um pouco dos últimos filmes, pois como o suspense é um elemento muito presente, vemos até algumas cenas que levemente nos sugerem um pouco mais de ação, sendo um filme mais movimentado que “Tese Sobre um Homicídio” ou “Elefante Branco”. Mas devo confessar que “Um Conto Chinês” ainda tem sido insuperável nos últimos tempos.

Contudo, nada disso tira o valor do excelente filme “Sétimo”, que é um prato cheio para os fãs do cinema argentino e, sobretudo, de Ricardo Darín, que se firma cada vez mais como um dos grandes nomes do cinema mundial. Programa imperdível.

Cartaz do filme


Sebástian e Delia com os filhos.


 
Sebástian e Delia. Atormentados pela perda dos filhos.




Filme tem alguns bons momentos de ação.


Boa fotografia num uso inteligente de locações.


Nas filmagens.



E na coletiva de imprensa.