Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!
Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Resenha de Filme - Os Pássaros

Os Pássaros. Desequilíbrio Ecológico A Serviço Do Suspense.
Mais um Hitchcock restaurado. Dessa vez, é o divertidíssimo “Os Pássaros” (perdão aos mais puristas, mas vejo esse filme mais como de humor do que de suspense), que é um verdadeiro terreno livre para o inusitado. Sempre vale a pena recordar essa obra de 1963. Vamos a ela!
Vemos aqui a história de Melanie Daniels (interpretada por Tippi Hedren), uma socialite que conhece, numa pet shop em San Francisco (da qual o próprio Hitchcock sai como figurante com três cachorrinhos), o elegante figurão e advogado Mitch Brenner (interpretado por um Rod Taylor no auge da forma, que foi estrela do inesquecível “Máquina do Tempo”, de H. G. Wells e estrelou uma série de TV chamada “Missão Secreta”, que passou na Globo na década de 1980). Os dois começam uma conversa, que chega a um leve flerte e termina com um bate-boca provocado por Mitch, que revela ser um sujeito bem atrevido e engraçadinho. Apesar do desfecho não muito amigável, Melanie compra um casal de periquitos para deixar na porta do apartamento de Mitch, endereço que ela descobriu depois de anotar a placa do carro do advogado. Lá, ela descobre por um vizinho que Mitch está passando o fim de semana em uma cidadezinha nos arredores de San Francisco chamada Bodega Bay. Ela então viaja para lá e o encontra, onde descobre que ele tem uma irmã caçula além de uma mãezona coruja (interpretada por Jessica Tandy) que não quer perdê-lo de jeito nenhum para alguma pretendente. Até agora, a história tem muito mais tons de um dramalhão sem fim. Mas toda essa lenga-lenga é só um pretexto para reunir os protagonistas em Bodega Bay, onde o ataque dos seres emplumados ocorrerá. Alguns sinais sobre a violência dos pássaros se dão ao longo do filme. Vemos altas concentrações aéreas de gaivotas, corvos, passarinhos. Galinhas que se recusam a comer ração. Uma gaivota que dá uma bicada no cabelo de Melanie ferindo-a e desmanchando seu penteado barroco (algo que os pássaros farão pelo resto do filme, como eles odiavam aquele penteado rebuscado que hoje parece coisa da vovó – e era mesmo!).
Os ataques eram realmente muito hilários! Primeiro, as gaivotas ou corvos (ou até os dois juntos) se reuniam. Depois, começava o sobrevoo, com direito a muitas bicadas na cabeça e cadáveres com os olhos arrancados. Pardais, canários, cambaxirras e similares atravessando chaminés e invadindo salas. Ataques a postos de gasolina que vazavam bombas de combustível e provocavam explosões, porque sempre tem algum cretino inconveniente com um charuto aceso próximo a um posto de gasolina com combustível vazando! Hordas de gaivotas e corvos querendo invadir casas literalmente no bico. Aí, os bichinhos se acalmavam, se reuniam e se preparavam para um novo ataque. Tudo isso sob os olhares aterrorizados dos personagens que provocavam mais risos do que angústia. Sei não, mas ver uma gaivota ou um pardal atacando uma pessoa me parece o mesmo que ser atacado por um ursinho de pelúcia (ou um coelhinho, tal como em “Monty Python”). E com o agravante de galinhas fazendo greve de fome... Somente os corvos impunham algum respeito como seres malignos. Ainda assim, é muito engraçado ver um corvo dar uma bicada na mão de Rod Taylor quando ele passa pelas aves em sua fase mais calma.
O mais curioso é que o inexplicável permaneceu inexplicado. Por que a raiva toda daquelas aves? Por que o ódio a penteados rebuscados? E às crianças? Elas eram muito malcriadas? Pareciam tão boazinhas no filme! Não houve qualquer explicação satisfatória para isso. O que mais chegou perto de um argumento foi uma conversa num pequeno restaurante onde uma senhora cujo hobbie era a ornitologia (quem já viu o desenho – não tenho o hábito de falar anime – do pica-pau sabe que ornitólogo é o especialista em pássaros) mencionou, muito de relance, a interferência humana como um possível motivo daquela revolta toda. Assim, uma ópera do absurdo que é uma revolta das aves talvez pudesse ter uma explicação num possível desequilíbrio ecológico provocado pelo homem que levou àquela fúria emplumada. Assim, o filme “Os Pássaros” pode ter sido um dos primeiros thrillers com consciência ecológica da história do cinema!
Palhaçadas e babaquices à parte, a película “Os Pássaros” não deixa de ser uma obra-prima do mestre do suspense, que sempre também tem muito bom humor (essas duas facetas de Hitchcock ficam explícitas nesse filme). Em que pese a graça de algumas cenas, outras também expressam alguma tensão, tal como a sequência do ataque a Melanie que a deixou em estado de choque. Algumas cenas de ataque claramente tinham os efeitos especiais rudimentares da época, mas em outras tínhamos pássaros verdadeiramente treinados. E reunir aquele monte de gaivotas e corvos na parte final deve ter sido realmente um trabalho muito penoso (desculpem-me, mas não resisti ao trocadilho).

Assim, no melhor estilo “Vale a Pena Ver de Novo” e “Sessão da Tarde”, é altamente recomendável dar uma conferidinha neste famoso (e, na minha opinião, divertido) filme de Hitchcock.


 Cartaz do filme, com a silhueta do mestre.



Ataque aos penteados barrocos!!!!


Começa com um...


E, depois, a patota toda!!!


E aí, o ataque!!!!


Rod Taylor, como o galã Mitch Brenner


Jessica Tandy, como a mamãe coruja...


Tippi Hedren, como a socialite Melanie Daniels.


Sob vigilância atenta…


O mestre do suspense com seus bichinhos…


Era, também, um grande zoador...


Fazendo uma ponta no início do filme...


Dirigindo no set de filmagem.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Resenha de Filme - Jogo de Xadrez

Jogo de Xadrez. Mais um Thriller Policial Brasileiro.
Mais um filme brasileiro que passa despercebido. Em sessão única no Espaço Itaú de Cinema, o bom filme “Jogo de Xadrez”, de Luís Antônio Pereira, é exibido numa sala quase abandonada. As testemunhas que assistiram a sessão puderam perceber que o nosso cinema produz bons filmes, mas que não têm o reconhecimento e a divulgação necessárias. Assim, faremos mais uma missão cívica aqui, pois temos uma boa produção digna de registro, sem falar no ótimo trocadilho do título do filme.
A história fala de Guilhermina (interpretada por uma degradada Priscila Fantin), uma fraudadora do INSS que foi usada como bode expiatório e terminou no presídio (qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência). Um dos mentores da fraude, o senador Franco (interpretado por Antônio Calloni) saiu ileso de todo o processo. Assim, Guilhermina busca a sua vingança. Dentro da prisão, Guilhermina tem a ajuda da fiel escudeira Martona (interpretada por Luana Xavier) e conhece a recém chegada Beth (interpretada por Carla Marins). Elas comem o pão que o diabo amassou nas mãos do diretor Geraldo (interpretado por Tuca Andrada), que as coloca na solitária e precisa dar um fim a Guilhermina, pois o diretor é pau mandado do senador Franco. Com a ajuda de um policial, as três detentas conseguem fugir e se escondem na casa da irmã de Guilhermina que logo não simpatiza com Beth, suspeitando dela. Para poder se vingar do senador, Guilhermina sequestra, junto com suas amigas, o filho dele e pede dinheiro para o pagamento do resgate. Mas Beth estava a serviço do senador e uma armadilha para Guilhermina foi montada (a própria fuga das detentas fazia parte do plano contra Guilhermina). As suspeitas da irmã de Guilhermina contra Beth acabaram se confirmando. E assim, Guilhermina e Martona são assassinadas como queima de arquivo. Tudo parecia que ia terminar bem para o senador e para Beth, mas eles também acabaram assassinados pela irmã de Guilhermina, que confirmou sua vingança post mortem.

O filme tem bons méritos. Cenas tensas e pesadas no presídio, onde as atrizes deram um show (Priscila e Carla estavam deliciosamente insuportáveis), cenas de ação durante a fuga, uma trama envolvente que prende a atenção do espectador durante os oitenta minutos de duração, sendo uma história bem enxuta, que não se arrasta por muito tempo. E tudo isso abordando um tema bem nacional que passa pela corrupção das fraudes do INSS e dos presídios. E, mais uma vez vem a inquietação. Até que ponto a arte está imitando a vida? Até que ponto e em que quantidade nós temos na vida real bodes expiatórios e políticos corruptos impunes? Tais questões martelam a nossa cabeça. Sabemos que no Brasil tais coisas existem. Mas em qual quantidade? Com qual prejuízo para todos nós? As teorias da conspiração despertam no âmago de nossa alma.

Cartaz do Filme.


 Saindo da solitária.


Impondo respeito no presídio.


Carla Marins como a traíra Beth.


Antônio Calloni como senador Franco. Ótima interpretação.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Resenha de Filme - Prenda-me

Prenda-me. Redenção Na Destruição.
Inquietante. Intrigante. Desesperador. Essas são as impressões principais de “Prenda-me” (Arrêtez-moi, de Jean-Paul Lilienfeld), filme francês que tem tons de forte denúncia. Em pauta, a violência contra a mulher. Mas de uma forma bem contundente, onde a violência física não é a única protagonista. Vemos aqui também todo um desfacelamento psicológico, que é o mais perturbador. Falemos um pouco da história.
A trama começa de forma bem peculiar. Uma dona de casa (interpretada por Sophie Marceau) deixa o seu lar, com um quarto ao som de heavy metal no último volume e vai até a delegacia, onde encontra uma policial (interpretada por Miou-Miou) de plantão. Lá, a dona de casa vai confessar que, há dez anos, matou o seu marido ao empurrá-lo da sacada de seu apartamento e quer se entregar. Ao contar a sua história, vemos que a dona de casa sempre adotou uma postura bem submissa e sempre aceitou as violências e espancamentos do marido, inclusive acobertando em seu depoimento os estupros que sofria, para a ira da policial que, incrédula, presenciava a vontade compulsiva da mulher em destruir sua vida na prisão. O grande mérito do filme é presenciarmos as cenas de espancamento sob o ponto de vista da mulher agredida, onde a câmara parece estar com a mulher que sofre as violências. Assim, parece que também estamos apanhando. Vemos um homem enfurecido vindo em nossa direção e nos agredindo, ao mesmo tempo em que escutamos os gritos e choros da dona de casa, numa comunhão entre o espectador e a protagonista vítima. São momentos realmente muito inquietantes e angustiantes, tão angustiantes quanto quando o marido é empurrado da sacada pela mulher, pois empurramos o homem junto com ela e ainda vemos o sujeito caindo lá embaixo, numa relação de total cumplicidade com a protagonista, no sofrimento e no crime. A polícia acreditou na tese do suicídio e inocentou a mulher. Mas a dona de casa não se livrou da tortura psicológica impressa por ela mesma (manifesta em tremedeiras e crises de insônia) e também pelo filho que, enfurecido com a morte do pai, encheu a casa de fotos do falecido progenitor para atormentar a mãe, chegando, inclusive, a filmar a mãe durante as suas crises de insônia. E a policial não entendia porque aquela mulher tão sofrida queria a prisão. A conversa entre as duas no escritório da policial durante a noite é altamente tensa. A policial fala de crimes muito piores que ela presenciou, como o bebê assado no forno pela mãe, ou até crimes que a própria policial cometeu e não denunciou, tal como um chute na cabeça que ela deu num homem que depois inclusive tornou-se seu amante. As duas conversam, gritam, surtam, destroem o escritório, tal como as mulheres de Almodóvar (à beira de um ataque de nervos). Por fim, a policial prende a dona de casa, mas nada registra, para que o crime prescreva e a mulher não consiga procurar outra delegacia. De manhã bem cedo, a policial retorna à delegacia e solta a mulher, com o crime já prescrito. A dona de casa diz então, que falhou como esposa, mãe e pessoa, pois nem culpada de um crime contra o próprio algoz ela conseguiu ser. Foi aí que a ficha da policial caiu e ela disse que poderia fazer toda a papelada de abertura do caso de homicídio por escrito e adulterar a data para que o crime ainda não tivesse prescrito. A dona de casa, então, consegue sua prisão e sua redenção. Ela não foi uma vítima apenas. Foi também culpada, pois reagiu a todas as violências que sofreu, matando o marido. Ainda, de quebra, falou tudo o que quis na cara do filho quando este a visitou na prisão. Agora, ele jamais se esqueceria da mãe, mesmo que fosse a odiando. Nunca mais ficaria indiferente a ela, que não queria mais saber de conversa com ele.
Tenso, pesado. A mulher agredida e psicologicamente abalada só encontrou a sua redenção sacrificando sua própria liberdade e vida. A submissa, vítima, a covarde que acobertava as agressões do marido reagiu afinal. E os grilhões da prisão eram os louros de sua vitória. Neura pura. Destruição psicológica total. Obra prima...



Cartaz do filme.


Sophie Marceau, como a dona de casa.


Miou Miou como a policial que não quer prender.


Diálogo com muitos momentos de tensão.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Resenha de Filme - Lunchbox

Lunchbox. Desencontros e Desilusões.
O maior produtor de filmes do mundo, a Índia (não, não são os Estados Unidos!) lança mais uma pequena preciosidade. Dessa vez, temos o razoável “Lunchbox”, de Ritesh Batra. Você então se pode perguntar: se o filme é razoável, por que ele é uma preciosidade? Para isso, vamos cair de cabeça nesse mundo oriental tão distante de nós.
A trama conta a história de um funcionário do governo, Saajan Fernandes (interpretado por Irrfan Khan), que está prestes a se aposentar depois de trinta e cinco anos de serviço. Viúvo, Fernandes é uma pessoa amarga, antipático com as crianças na vizinhança da rua, próximas a sua casa, e com todo mundo. Ele será substituído pelo jovem Shaik (interpretado por Nawazuddin Siddiqui), um rapaz solícito e falastrão que deverá ser treinado por Fernandes, mas que o evita totalmente. A vida de Fernandes provavelmente se encaminharia para a aposentadoria e o ostracismo caso não houvesse um serviço de entrega de marmitas na Índia muito conhecido por não falhar nunca. Mas no caso de Fernandes, falhou. Ele passou a receber, por engano, marmitas de Ila (interpretada pela belíssima Nimrat Kaur), que está infeliz no seu casamento e procura fazer comidas com temperos especiais para chamar a atenção do seu marido. Ao perceber a indiferença do marido, Ila percebe o erro do envio da marmita e manda um bilhete por ela, citando o engano. Fernandes receberá o bilhete e os dois começarão uma interessante relação onde um irá se amparar no outro. A vida dos dois se transforma com essa relação. Ila sonha em viajar para o Butão, um lugar que tem a fama de ser muito feliz. E Fernandes vai se tornando uma pessoa mais alegre e aberta, inclusive iniciando um relacionamento mais próximo com Shaik, outro ponto positivo no filme. Só é de se lamentar que, na hora em que Fernandes e Ila marcam um encontro, Fernandes desiste de falar com ela, pois começa a perceber o peso da velhice e a visão da jovem e bela Ila o desencorajou a falar com ela. Dói muito ver Ila aflita bebendo copos e copos de água à espera de Fernandes e ele lá, no balcão do bar, olhando a aflição de Ila à distância, sem sequer se dar uma chance. Ila ainda irá procurar Fernandes no emprego, mas ele já havia se aposentado e passaria a morar em outro lugar, onde o desencontro dá margem a mais uma desilusão. Apesar de não haver o óbvio ululante do happy end, o que acho sempre que é uma virtude, esse relacionamento poderia dar mais caldo, eles realmente poderiam ter se encontrado e concluído que a vida a dois não daria certo e cada um iria para o seu lado. Entretanto, optou-se pelo desencontro total, numa alusão a uma vida mais real e crua. De qualquer forma, os dois transformaram suas vidas no relacionamento com os bilhetes, já que Fernandes iniciou uma aposentadoria com a mente mais aberta e Ila fez planos de pegar sua filha e se mandar, como diria aquele poeta baiano, sem lenço e sem documento para o... Butão!!!
No mais, o filme tem a virtude de mostrar uma Índia contemporânea, onde o inglês é uma espécie de segundo idioma, em virtude da globalização e do fato de a Índia ter sido uma colônia inglesa. Vemos o subdesenvolvimento em trens lotados, na miséria reinante. Vemos desilusões com uma suposta desvalorização indiana para os talentos, uma espécie de letargia provocada por uma falta de perspectiva, expressas até em suicídios, o esquecimento das tradições, com ainda alguns bolsões de sobrevivência da cultura original.

Assim, o filme é uma preciosidade por abordar questões da Índia contemporânea e por ser um pouco mais realista quanto ao destino das relações humanas. E o filme é razoável talvez por ter sido um pouco realista demais e não viajar um pouquinho mais na maionese do romance lúdico entre Fernandes e Ila, pelo qual torcemos muito e nos deixa com cara de pastel no desfecho.

 Cartaz do filme.


Fernandes, a marmita e o bilhete.


A belíssima Ila.


Mais Ila...


Tudo de bom!!!


O simpático Shaik.

domingo, 13 de abril de 2014

Resenha de Filme - As Grandes Ondas.

As Grandes Ondas. Transmitindo Cravos e Revoluções.
Imagine você presenciar uma revolução ao vivo. Uma revolução que é a apologia da liberdade, onde não há praticamente derramamento de sangue. Uma revolução rápida, louca e que ficou marcada em você pela experiência única. Essa é a impressão de “As Grandes Ondas” (Les Grandes Ondes), uma produção da França, Suíça e Portugal de 2013 dirigida por Lionel Baier, inspirada numa história real.

Estamos em abril de 1974, na Suíça. Em uma rádio, vemos a conversa entre o responsável por sua programação e um executivo. Há um clima de tensão, pois o responsável pela programação, Philippe de Roulet (interpretado por Jean-Stephane Bron), está preocupado em fornecer  programas de conteúdo ideológico e politizados, ao passo que o executivo quer uma programação baseada em entretenimento e amenidades. Assim, de Roulet envia a Portugal uma pequena equipe para obter notícias que entretenham a audiência e mostrem as contribuições da Suíça àquele país. Essa equipe é formada pela feminista Julie Dujonc-Renes (interpretada pela bela Valérie Donzelli), pelo repórter Cauvin (interpretado por Michel Vuillermoz), um veterano repórter de guerra que perdeu a memória imediata, tendo que gravar toda hora suas lembranças em um grande e pouco prático gravador, e pelo técnico de som Bob, próximo à sua aposentadoria (interpretado por Patrick Lapp). O filme é uma deliciosa comédia onde vemos nossos protagonistas se embananando todo o tempo com as grandes contribuições suíças a Portugal: um relógio suíço para uma escola, um conjunto habitacional que não saiu do papel, etc. Cauvin pensava que falava português e mal se comunicava com os gajos locais (ele dizia que tinha aprendido português brasileiro, daí a dificuldade de comunicação), até que nossos radialistas encontraram o jovem Pelé (interpretado por Francisco Belard), que sabia francês, pois seu pai era projecionista de cinema e aprendeu a falar francês com os filmes. Pelé, então, se tornará o intérprete do grupo. Mas as matérias encontradas por nossa trupe são um desastre, sobretudo a entrevista com o português racista, muito hilária. Fracassada a missão, a equipe retorna a Lausanne, Suíça, mas se perde no meio do caminho (Cauvin esqueceu o caminho de volta e não sabia nem sair de Portugal). Foi aí que eles se depararam com uma equipe de rádio da Bélgica, que lhes informou que a Revolução dos Cravos estava em pleno andamento, com os militares eliminando os últimos resquícios de salazarismo (o equivalente ao fascismo em Portugal) e colonialismo. Sem praticamente disparar um tiro, a revolução era uma apologia à liberdade, com muita celebração na rua, beijos na boca e surubas aqui e ali, num verdadeiro Woodstock lusitano, onde nossos protagonistas se divertiram muito (Pelé até perdeu sua virgindade!), à exceção de Cauvin, que assistia a um discurso de um militar português e, ao ser descoberto que era suíço, foi também colocado para discursar com seu português macarrônico que ninguém entendia, mas que achavam maravilhoso, sendo outro momento engraçadíssimo do filme. Ao final, vemos o real destino de nossos protagonistas. Bob se aposentou, Cauvin morreu num acidente automobilístico, Julie continuou trabalhando na rádio e Pelé se tornou ator de filmes eróticos. A Kombi onde viajava nossa trupe acabou exposta num museu da rádio. Assim, o filme “As Grandes Ondas” é uma comédia muito interessante de se ver por tratar dessa inusitada história real onde a vida foi mais imaginativa que a arte.

Nossa simpática equipe.


Cauvin, Julie e Bob.


Cauvin no meio da revolução.


Julie enfrentando um tanque português.


Pelé e Cauvin.


Discurso de Cauvin. Parte hilária do filme.


A beleza de Julie é estonteante!


Revolução dos Cravos. Triunfo da liberdade e do amor.

sábado, 12 de abril de 2014

Resenha de Filme - Refém da Paixão

Refém da Paixão. Síndrome de Estocolmo Levada Às Últimas Consequências.
Às vezes, as joias mais fulgurantes não brilham tanto. Passam quase despercebidas, mas possuem todo um frescor especial. Estão lá, escondidinhas, mas, quando descobertas, se abrem a nós em todo o seu esplendor. E tocam. E emocionam. É isso que podemos falar do ótimo filme “Refém da Paixão” (“Labor Day”, dirigido por Jason Reitman).
A história gira em torno de Henry (interpretado por Gattlin Griffith) e sua mãe Adele (interpretada pela sempre maravilhosa Kate Winslet). Eles vivem sozinhos depois que o marido (e pai) os abandonou. Henry sentia muito a vida melancólica da mãe, que havia desistido do amor. Ele tentava cobrir a mãe de todos os mimos, sendo “marido por um dia”, mas faltava “aquilo”. Um dia, nas monótonas compras do mês no supermercado, eles encontram Frank (interpretado por Josh Brolin), um fugitivo da prisão com uma incisão de uma apendicite aberta. Frank precisava se esconder da polícia e descansar para se recuperar de seu ferimento, o que deixou mãe e filho apavorados. Mas Frank pouco a pouco conseguiu acalmá-los e foi conquistando a confiança de Adele e Henry assim como também a sua afeição, num caso típico de síndrome de Estocolmo, onde sequestrador e sequestrado iniciam um relacionamento que os aproxima cada vez mais. É interessante notar que tudo isso acontece apesar de alguns contratempos, como o fato de Henry e Adele descobrirem que Frank cumpre pena de dezoito anos de prisão por assassinato e o fato de Frank amarrar Adele para “simular” um sequestro caso a polícia chegue a casa, já que manter voluntariamente um foragido da justiça é considerado crime e Frank não quer prejudicar a família que o esconde espontaneamente. Aos poucos, Frank se torna o marido e pai que Adele e Henry não tinham: conserta o jardim, o carro, limpa a casa e até cozinha. A sequência mais bonita do filme é o preparo de uma torta de pêssegos, onde toda uma linguagem corporal entre Frank e Adele mostra como a dona de casa ressuscita seu gosto pelo amor. O envolvimento entre os três fica cada vez maior e Adele e Henry não querem mais que Frank vá embora. Um ciúme em Henry por ver Frank se aproximando da mãe também aparecerá e será alimentado por uma amiguinha de Henry. Mas o ciúme que poderia ter sido mais desenvolvido no roteiro não passou muito de um sentimento vago, pois uma crise entre o trio Adele-Henry-Frank ficaria fora do contexto, já que o filme se ampara muito na forte química entre os três personagens. Adele e Frank resolvem fugir para o Canadá e levar Henry junto (que pensava que ia ficar para trás, daí a crise temporária de ciúme), mas, aos poucos, Henry vai sendo descoberto por amigos e vizinhos e termina preso, não sem antes amarrar Adele e Henry para protegê-los de qualquer incriminação. Se antes, mãe e filho eram amarrados num clima de medo provocado por um estranho, agora eles eram amarrados também num clima de medo, mas medo pela perda iminente de um ente querido. Paralelamente a essa trama, vemos no desenrolar do filme a história pessoal de Frank e porque ele cometeu assassinato. Ele era um bom pai, com esposa e filha pequena. Mas a esposa o traiu e, enquanto enchia a banheira com a criança dentro, Frank escuta a esposa chegando a casa. Ele pergunta se o bebê é dele e não de outro homem e recebe um sorriso sarcástico da esposa. Irritado, ele a empurra, a moça perde o equilíbrio e bate a cabeça acidentalmente no aquecedor de ferro, morrendo em seguida. Ao mesmo tempo, o gotejar no teto indica a banheira transbordando com o bebê já afogado no banheiro, que está na parte de cima da casa. Assim, Frank tinha uma família que ficou destroçada, da mesma forma que Adele e Henry. Na verdade, Frank e Adele eram ambos fugitivos. Frank, de seu passado sombrio e da justiça; e Adele, de sua melancolia provocada pela separação que, por sua vez, é o resultado da fuga do ex-marido de Adele, que não aguentou a tristeza dela por não poder mais gerar filhos. Assim, vemos o filme como um loop de fugas que provocam mais fugas, tal como num efeito dominó. O próprio Henry se afastará da mãe após a prisão de Frank para poder seguir com sua vida adiante. Entretanto, apesar do filme mostrar muitas situações tristes e, aparentemente sem saída, That´s Hollywood e o happy end salva o dia. Não sem antes Tobey Maguire, que narra o filme, fazer uma ponta como o adulto Henry em seu final. Quanto ao desfecho do filme, só vou falar que a torta de pêssegos desempenha um papel crucial novamente.

“Refém da Paixão” é, então, uma história muito envolvente. Uma história de redenção. Uma história que mostra que todos nós merecemos uma segunda chance. Uma história de esperança. Vejam, tenham e guardem.

Lindo cartaz do filme.


Adele, Henry e Frank no supermercado. Tensão.


Simulação de sequestro.


Sequência da torta de pêssegos: a mais bonita do filme.


Frank e Adele se aproximam


Ensinando beisebol.


Intimidade entra Adele e Frank encuca Henry.


Prisão de Frank. Amor já revelado. Dor da nova separação.


Tobey Maguire, nosso eterno Homem-Aranha, como Henry em sua idade adulta.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Resenha de Filme - Alemão

Alemão. Ação e Thriller Tupiniquins.
Um bom filme de ação e suspense nos moldes do cinema americano, mas com temática 100% nacional. Essa é a impressão de “Alemão”, filme brasileiro que aborda o complexo de comunidades da zona norte às vésperas da invasão promovida pelo governo.
Vemos aqui a história de cinco policiais que se infiltraram no morro para fazer serviços de inteligência, com o objetivo de facilitar a ação da invasão. O filme deixa claro que muitos policiais foram infiltrados. Toda a operação era secreta e foi comandada pelo delegado Valadares (interpretado por Antônio Fagundes), cujo filho Samuel (interpretado por Caio Blat) era um dos cinco policiais infiltrados no complexo. O problema é que um mensageiro do delegado foi abordado por traficantes e fugiu de moto, deixando para trás uma mochila com as informações de todos os policiais infiltrados. Desesperados, os policiais se escondem numa pizzaria de fachada de um deles. O filme toma proporções de grande suspense, pois enquanto os traficantes caçam os policiais, estes vivem momentos de grande tensão, onde a desconfiança mútua faz com que os próprios policiais ameacem uns aos outros e o diálogo é sempre cheio de muita agressividade. Por outro lado, há a tentativa em vão por parte do delegado em localizá-los, já que o chefão do tráfico, Playboy (interpretado por Cauã Reymond), manda desligar internet e sinal de telefones celulares da comunidade, deixando o complexo incomunicável. Para tornar a situação ainda pior, uma faxineira da pizzaria (Mariana, interpretada por Mariana Nunes) vai pegar o dinheiro de seu trabalho e fica presa na pizzaria (mulher errada na hora errada). Mais um elemento que envolve tensão à trama é o fato de que um dos policiais infiltrados, Carlinhos (interpretado por Marcello Melo Jr.), se envolve com a irmã do braço direito de Playboy, que a usará como refém para chantagear o policial. Uma história com um bom roteiro (embora haja uma ou outra passagem inusitada para um contexto de estado paralelo) que mostra bem a qualidade de um cinema brasileiro realmente bom.
Quanto aos atores, um bom elenco. Antônio Fagundes, dispensa apresentações. Cauã Reymond foi um dos produtores do filme e fez um baita laboratório na comunidade para compor seu personagem. Dentre os policiais, Caio Blat, Otávio Muller, Gabriel Braga Nunes, Marcello Melo Jr., e Milhem Cortaz, o nome ideal para filmes policiais brasileiros, com a voz que parece eternamente precisar de pastilhas para garganta. Já o vimos em “Assalto ao Banco Central” e em “Tropa de Elite”.
Um detalhe curioso aqui é o uso de imagens reais de telejornais falando da invasão do Alemão, discursos de autoridades, manifestações na comunidade e os protestos de rua do ano passado, etc., imagens essas que buscariam dar uma “ilusão de realidade” ao enredo do filme. A impressão seria realmente essa (uma ilusão) não fosse a inquietante legenda que aparece bem ao início do filme onde é dito que, apesar da história “se amparar em pesquisas de jornais, telejornais e arquivos, esse filme pode ser considerado uma ficção”. Aí, temos uma impressão de que, algo semelhante ao que aconteceu no filme (policiais do serviço de inteligência descobertos dentro do morro e cercados por traficantes) acabou acontecendo realmente. E desconfiar que tudo o que vimos não foi uma história de ficção, mas talvez algo real, é a maior das inquietações, angústias e tensões que vemos em “Alemão”. Este detalhe acaba tornando esse filme sobre o tráfico e a criminalidade carioca um pouco diferente dos demais, pois a legenda inicial parece nos dizer: “Olha só, vocês verão toda a situação apresentada no filme, mas nada disso aconteceu, OK?”, quando realmente pode ter acontecido. E isso é o que mais acaba incomodando a gente.

Por essas e por outras, vale a pena dar uma conferida em “Alemão”, bom produto de nosso cinema brasileiro com B maiúsculo.

 Cartaz do Filme


Cauã Reymond, como o traficante Playboy e seus comandados.


 Milhem Cortaz. Presença sempre marcante em filmes nacionais de temática policial.


Antônio Fagundes como delegado Valadares. Mãos atadas e drama familiar.


A equipe de policiais, a faxineira e o diretor José Eduardo Belmonte.