Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!
Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

sábado, 21 de março de 2015

Resenha de Filme - Duas Irmãs, Uma Paixão

Duas Irmãs, Uma Paixão. Dividindo Um Poeta Da Literatura Universal.
Um bom filme alemão na área. “Duas Irmãs, Uma Paixão” conta a história de um triângulo amoroso, onde um dos vértices é ninguém mais, ninguém menos que Friedrich Schiller (interpretado por Florian Stetter), um dos grandes escritores da literatura alemã e mundial. Veremos aqui como o poeta e escritor, um zé ninguém em termos de cabedal aristocrático, mas já valorizado por suas letras, irá conquistar duas irmãs, Caroline (interpretada por Hannah Herzsprung) e Charlotte (interpretada por Henriette Confurius), sendo que os três aceitam a condição de se amarem mutuamente, numa espécie de amizade colorida da “aufklärung” (Iluminismo). Caroline era casada, pois seu pai morreu cedo e a família ficou sem dinheiro. Por uma questão de conveniência, ou seja, para salvar a saúde financeira da mãe e da irmã, Caroline aceitou tal sacrifício. Já Charlotte sofria por não conseguir um verdadeiro amor, assim como nosso Schiller, romântico e galinha como ele só. As irmãs se amavam profundamente e fizeram um pacto em dividir Schiller entre elas, e o escritor obviamente não se opôs. Mas, apesar de ele ser considerado um gênio de sua época, chegando a se encontrar com o próprio Goethe para uma conversa (devidamente observada à distância por membros da aristocracia), nosso escritor não tinha nem profissão nem grana, sendo visto com reservas pela elite aristocrática quando o assunto era casamento. Assim, o triângulo amoroso do filme teve que passar por todos os crivos impostos pela sociedade de Antigo Regime. O mais curioso é que tal história, que tem um suposto fundo de verdade graças a um pequeno fragmento na correspondência de Schiller escrito para Caroline, se passa ao fim do século XVIII, quando a mais importante das revoluções liberais, a francesa, aniquilava a aristocracia feudal e tingia de sangue a Europa, para desgosto de nosso escritor, que havia conseguido uma vaga de professor de História na Universidade e cuja aula inaugural falava de um otimismo com relação ao futuro, inspirado por uma sociedade letrada amante da arte e da sabedoria. O desgosto de Schiller se baseou justamente no fato de que as execuções na guilhotina inspiravam o mesmo terror que as torturas dos interrogatórios impostos pela Santa Inquisição Espanhola.
O filme é regado a muitas correspondências, viagens, pequenas intrigas, jogos de esconde-esconde para encobrir adultérios. Mas é notório perceber que, com o tempo, a divisão de Schiller feita pelas irmãs desgasta a relação das duas. Novas famílias foram criadas, muito mais pobres pelo contexto histórico da época revolucionária, e com crises internas entre as irmãs e a mãe que, acometida de uma doença grave, não queria morrer com as filhas em guerra. Lamentavelmente, nosso escritor e poeta tinha uma doença respiratória grave e faleceu com apenas 45 anos. Apesar de tudo, sua vida amorosa parece ter sido muito rica e provavelmente tais querelas amorosas podem ter acontecido em maior ou menor intensidade. O filme foi um exercício de imaginação nesse sentido e deve ter tido uma pesquisa admirável.
A trama também mostra uma Alemanha mais romântica, aristocrática e fofa, pouco rude. Temos uma certa visão estereotipada dos alemães como um povo ríspido e rude, que só abrem um sorriso de orelha a orelha quando vencem a gente por 7 a 1. Mas a Alemanha do filme era mais suave, com personagens mais sensíveis, dentro de um espírito nascente e otimista de “aufklärung”, envolta numa visão mais romântica. Obviamente, há um momento mais ríspido ou outro como o tapa na cara que Caroline dá em seu companheiro ou no soco na mesa que a mãe dá quando exige que as filhas irmãs não briguem depois de sua morte. Mas dá para passar. Um filme com alemães mergulhados em florzinhas e delicadezas o tempo todo realmente me parece impossível. Visão estereotipada? Talvez...

De qualquer forma, “Duas Irmãs, Uma Paixão” é uma boa experiência cinematográfica. Um filme que caprichou na fotografia, no figurino e nas locações, sendo provavelmente bem caro por causa disso. Um filme feito com capricho e cuidado, que enche os olhos pela beleza de suas imagens. Uma história talvez um pouco longa e cansativa. Mas ainda assim, a película vale a pena.

Cartaz do filme no Brasil


Cartaz internacional, muito mais bonito... um Schiller nu, aquecido pelas irmãs...


Friedrich Schiller, um dos maiores escritores da literatura universal...


Triângulo amoroso peculiar...


Charlotte e Caroline. Na juventude, tudo são flores...


Irmãs muito unidas


Schiller em sua aula inaugural de História...


... e as mocinhas disfarçadas assistindo.


Marido de Caroline. Casamento por conveniência


Uma mãe temerosa com o futuro das filhas...

terça-feira, 3 de março de 2015

Resenha de Filme - Um Santo Vizinho

Um Santo Vizinho. Doce Drama Com Gostinho de Tragédia.
O “bem amado” Bill Murray está de volta. O lendário caça-fantasma estrela uma película muito legal intitulada “Um Santo Vizinho” (“St. Vincent”), que foi indicado para dois Globos de Ouro (melhor filme de comédia ou musical e melhor ator de comédia ou musical para Bill Murray). É uma história muito tocante regada a humor, drama e com pitadas de tragédia.
Temos aqui o personagem Vincent (interpretado por Murray), um velho rabugento, grosso e cheio de vícios que afundam sua vida totalmente. O cara vive sem grana, devendo para Deus e o mundo, sofrendo as piores consequências de seus atos. Ele tem um relacionamento meio barro, meio tijolo com uma prostituta, Daka (interpretada por Naomi Watts) que, para piorar a situação, está grávida e não consegue mais ser contratada para seus números de pole dance. Um belo dia, um caminhão de mudança quebra um galho em frente à casa de Vincent, que cai em cima de seu carro. É aí que conhecemos Maggie (interpretada por Melissa McCarthy) e seu filho pré-adolescente Oliver (interpretado por Jaeden Lieberher), que chegam para ser vizinhos de Vincent. O primeiro contato é, obviamente, pouco amistoso em virtude da destruição da árvore e do farol do carro de Vincent. Mãe e filho acabam de se afastar de marido e pai, em virtude das sucessivas traições que o esposo praticava. Assim, Maggie terá que dar muito duro trabalhando em exames e laudos de tomografia computadorizada. Enquanto isso, Oliver sofre bullying na escola católica em que foi matriculado, e tem sua chave, carteira e celular roubados na escola, tendo que ficar na casa de Vincent. O velho rabugento aceita, muito a contragosto, ser babá do garoto. E aí o filme continua em meio a muitas revelações e reviravoltas.
É um filme onde Murray destila todo o seu talento. Ele consegue ser, ao mesmo tempo, muito grosseiro e engraçado. O relacionamento de Vincent com Oliver é a tônica da coisa. O menino, bem criado pela mãe, vai conhecer através de Vincent uma série de atitudes consideradas pouco recomendáveis como as apostas em corridas de cavalos, ou acertar o nariz de um colega que o importuna. Apesar disso, Oliver  será o responsável por descortinar para nós o lado doce de Vincent. E vamos descobrindo outras virtudes do protagonista no transcorrer da película. A trama terá uma parte mais trágica, que não vou contar aqui, mas que servirá para unir mais os personagens.
Apesar de Murray ser o foco principal, não podemos deixar de destacar a bela atuação de Naomi Watts, uma atriz com cara de porcelana que faria perfeitamente aquelas mocinhas bem sem graças WASPs que vemos por aí. Fazer uma prostituta grávida foi um papel novo e revigorante, onde ela pôde explorar mais o seu talento. E a boa revelação Jaeden Lieberher no papel de Oliver. Sua interpretação contida como o garotinho bem criado era muito engraçada. Ele fazia uma criança com arroubos de adulto, mas sem parecer pedante. A coisa era cheia de simpatia e o menino convencia.

Se o filme parece uma comédia dramática mais convencional em sua primeira parte, a segunda parte do filme é bem mais interessante pelas reviravoltas que vemos. Por causa dessa segunda metade, “Um Santo Vizinho” foge do mais convencional e emociona. Vale muito a pena dar uma conferida, ainda se você é um fã de Bill Murray, que sempre é perfeito.

Cartaz do filme


Vincent, um velho rabugento


Com Oliver, Vincent mostrará seu lado bom


Com Daka, um relacionamento complexo


Maggie faz de tudo para ser uma mãe dedicada






segunda-feira, 2 de março de 2015

Resenha de Filme - Até Que A Sbórnia Nos Separe

Até Que A Sbórnia Nos Separe. Um Real País Fictício.
Lembram de uma dupla musical gaúcha altamente performática conhecida pela peça “Tangos e Tragédias”, lá em idos das décadas de 1980, 1990? Pois é, eles conseguiram fazer uma animação (antes tarde do que nunca) usando sua inspiração principal: o fictício país Sbórnia, uma ilhota com cara de leste europeu, ligada ao nosso continente por um fino istmo. Mas uma erupção vulcânica separou o pequeno país da América do Sul e, desde então, a ilha vaga sem rumo pelos oceanos do mundo, sendo esporadicamente vista por um ou outro navio aqui ou ali. A animação, muito bem feita por sinal, conta com as vozes do Tangos e Tragédias (Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, recentemente falecido) e figuras como André Abujamra (que, obviamente, também fez a música do filme junto com a dupla gaúcha), Arlete Salles e Fernanda Takai, a vocalista do grupo Pato Fu.
A grande sacação do filme é que o fictício país Sbórnia não é tão fictício assim. Ele era protegido do continente por um muro formado de tijolos feitos de cocô. Mas num jogo de futebol com machados, uma bola lançada para fora do estádio foi direta ao muro e o destruiu, criando um contato com o continente. Isso vai provocar o encontro de duas culturas, uma bem prosaica, que tem o hábito de se cumprimentar com lambidas e cuspes, e outra bem refinada. A alusão Brasil Subdesenvolvido – Mundo Desenvolvido é imediata. Mas o subdesenvolvimento também tem seus sabores. Uma bebida que deixava todo mundo ligado (uma alusão a gauchíssima erva-mate do chimarrão) foi descoberta por um grande empresário do continente, que vai transformar a bebida num refrigerante produzido em escala industrial. O sucesso de vendas foi tão grande que todo o estoque da bebida se esgotou em pouco tempo. Mas foi descoberta uma camada subterrânea de bebida, sugestivamente abaixo de uma camada de pré-sal, que passou a ser sugada pela grande fábrica. Como a bebida era muito volátil, a sua extração motivou a erupção vulcânica que separou a ilha do continente.

O filme é uma inteligente e divertida alusão à posição periférica do Brasil no mundo, onde a nossa cultura tupiniquim é vista pelo mundo desenvolvido em posição de inferioridade (os casos de falta de educação à mesa e os cumprimentos recheados de secreções), mas também um estranhamento mútuo entre o subdesenvolvido “tradicional” e o desenvolvido “moderno”. Há o caso das mocinhas do continente que chegam à praia da Sbórnia usando trajes sumários e dançando rock, o que assusta os sbornianos mais tradicionais, assim como a instalação de lojas cheias de roupas modernas para mulheres em plena Sbórnia que, apaixonadas pela nova moda, passaram a se vestir de acordo com as novas tendências e a maquiar o rosto, desvencilhando-se da sua forma tradicional de se vestir, onde todas ficavam cobertas. O embate tradição X modernidade acaba, inclusive, provocando implosões familiares. Logo, a interferência do capital estrangeiro, com a fábrica de refrigerante, e a imposição de hábitos vindos de fora acabaram provocando a destruição total de Sbórnia, tornando-o um país totalmente arrasado, vagando sem rumo e sem identidade pelo mundo. Uma nação de refugiados, como os muitos campos de refugiados que vemos pelo mundo afora, expatriados como os palestinos, um exemplo talvez ainda mais cristalino de Sbórnia, que nunca mais recuperou o seu território. A perda, por parte de Sbórnia, de sua identidade - e o inevitável que sua recuperação ocorra - se manifesta da forma mais dolorosa quando a mocinha do filme é vista idosa, vagando próxima ao lixão em que se transformou o vulcão. Se a tragédia é satirizada pelas crises amorosas de um dos integrantes do “Tangos e Tragédias”, essa tragédia final do filme – a destruição total de Sbórnia e o fato de que o país jamais se recuperará – é muito séria e nos serve de alerta, pois o Brasil pode sofrer (ou já sofre) hecatombe semelhante ou, dizendo em outras palavras, a zona e a desorganização de nosso país escondem a semente da destruição, tornando o Brasil uma “esbórnia”. Por essa reflexão, a animação tem um grande mérito e merece ser vista por muitas pessoas. E pensar que ela estava em apenas uma sala e um horário na cidade inteira. Adentrei a sala e só havia uma senhora assistindo. Com dez minutos de filme, ela caiu fora. Realmente vivemos numa esbórnia. Só tocando um tango argentino para lamentar toda essa tragédia.

 Cartaz do filme


Uma exótica dupla musical


Uma linda mocinha


Mulheres da Sbórnia todas cobertas (tradição)


Mulheres do continente (modernidade)


O grupo Tangos e Tragédias (Nico Nicolaievsky, recentemente falecido, à esquerda)




domingo, 1 de março de 2015

Resenha de Filme - Caminhos da Floresta

Caminhos Da Floresta. O Conto De Fadas Do Disney Doido.
Um filme fofo que resgata o gênero musical nas telonas. “Caminhos da Floresta” é inspirado numa peça da Broadway escrita por James Lapine e que mistura histórias de contos de fadas numa deliciosa intertextualidade. Podemos ver aqui personagens como Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Cinderela, João do Pé de Feijão , primeiro cada um em sua história original, para depois interagirem em novas possibilidades. Tudo isso tendo como pano de fundo uma floresta encantada, onde príncipes, princesas, crianças pobres e uma bruxa se relacionam, numa película produzida pela Disney.
O elenco conta com umas caras novinhas como Anna Kendrick, que interpreta a Cinderela, passando por James Corden (de “Apenas uma Chance”), Emily Blunt, até nomes consagrados como Johnny Deep, que faz o Lobo Mau, sendo uma pena que ele atuasse tão pouco, Chris Pine (o nosso Capitão Kirk), interpretando o príncipe da Cinderela (isso mesmo, aquele que acha o sapatinho) e a magistral presença de Meryl Streep, a bruxa má que interage com todos os personagens, mas originalmente é a bruxa de Rapunzel. É claro que Streep é A atriz do filme, o carro chefe do elenco, dando a maior credibilidade a todo o cast. Como foi dito no início desse texto, a Disney teve o mérito de resgatar nesse filme o gênero musical. Mas, infelizmente, de uma forma cada vez mais recorrente hoje em dia quando falamos de musicais. Não é um musical escrito especificamente para o cinema, mas mais uma adaptação cinematográfica de peça da Broadway. Esses musicais com gosto de teatro filmado, do estilo de “Os Miseráveis” e, em tempos mais pretéritos “Evita”, até alegram os amantes do gênero, tão carentes desse tipo de filme hoje em dia, mas se comparados com os verdadeiros musicais antigos, dos tempos da RKO e Metro, dos tempos de Gene Kelly e Fred Astaire, Leslie Caron ou Maurice Chevalier, não esquecendo de Jeanette McDonald e Nelson Eddy, com  números de canto e dança preciosamente filmados, os musicais de hoje obviamente deixam a desejar. O cinema é uma arte maior que um mero teatro filmado. Há até nesse filme os elementos cinematográficos que estamos acostumados como os efeitos especiais. Mas quando um filme é inspirado numa peça de teatro, usar de uma certa liberdade poética sempre é bom para se ampliar os horizontes cinematográficos da coisa.
A grande virtude de “Caminhos da Floresta”, entretanto, é o seu texto. Ele toma como base as histórias de contos de fadas clássicas, textos muito conhecidos. Mas a forma como os textos são imbricados e novas possiblidades apresentadas são fatores que dão grande qualidade à história. Temas inimagináveis como adultério, divórcio e morte mostram com grande eficiência que a máxima “E eles viveram felizes para sempre” nem sempre funciona. Aliás, a história é marcada por pequenas e grandes tragédias pessoais. E presenciamos personagens desamparados que até se agarram a uma vida comunitária para buscar forças e apoio uns nos outros. Esse foi um curioso elemento, uma espécie de “choque de realidade” no mundo dos sonhos.

Portanto, se “Caminhos da Floresta” ainda tem uma cara de peça de teatro como tem ocorrido com os musicais de cinema mais recentes, ele ainda é um filme que vale a pena ser assistido, pois conta com um bom elenco, trabalha com historinhas que recaem sobre o afetivo do grande público e consegue retirar delas novas perspectivas e possibilidades, tornando a coisa mais próxima de nosso mundo real. Uma intertextualidade muito criativa. Uma competente tensão entre a paráfrase e polissemia. Uma brincadeira literária que deu certo, resgatando o gênero musical, outrora tão amado, e que merecia um pouco mais de voz nos dias atuais.

Cartaz do filme


Um lobo mau performático


Cinderela e seu príncipe.


Que bruxona, hein?


Rapunzel, com tranças e tudo




sábado, 28 de fevereiro de 2015

Resenha de Filme - Corações de Ferro

Corações De Ferro. Bom Filme De Guerra, Apesar Dos Clichês.
O cinema mais uma vez aborda o tema da Segunda Guerra Mundial. O filme “Corações de Ferro” (“Fury”, 2014) é estrelado por Brad Pitt e enfoca a fase final da guerra, quando as tropas aliadas já haviam invadido a Normandia e chegado ao território alemão. Faltava pouco para o fim da guerra. Mas a situação dos americanos no “front” alemão era contraditória à situação do fim da guerra, já que os tanques alemães eram bem mais fortes e resistentes que os americanos. Somado a isso, estava o fato de que os alemães buscavam rechaçar o ataque aliado em pleno território pátrio, combatendo com muito mais ferocidade. O sargento Don (interpretado por Pitt) comandava cinco soldados que faziam parte da equipe do tanque “Fury”, que avançava bem na linha de frente, evitando que os alemães conquistassem posições estratégicas importantes. A quantidade exagerada de mortes levou um datilógrafo, Roman (interpretado por Logan Lerman) a fazer parte da equipe, depois da morte de um dos membros do “Fury”. Roman terá que se adaptar a toda a violência da guerra e à matança totalmente indiscriminada, para poder sobreviver. Dentre o staff do tanque Fury, ainda temos a presença do militar cujo apelido é “Bíblia”, já que ele sempre lê o livro sagrado e faz pequenas citações no dia a dia. Esse personagem é interpretado por Shia LaBeoulf, o jovem ator problema conhecido por “Transformers”.
Esse é um bom filme, apesar dos clichês. Vemos aqui o soldado sensível que não quer matar, sendo tripudiado por seus colegas e pelo seu superior, muito barbarizados pelas atrocidades da guerra. Outro clichê é o superior, o sargento Don que acaba amolecendo seu coração com o contato com o soldado sensível. O lampejo de amor impossível entre Roman e uma cidadã alemã é algo também um tanto que manjado. Todo filme de guerra também tem aquela coisa de virmos vários personagens que já sabemos que irão morrer como moscas ao final da história, numa situação sem saída.
Um aspecto curioso eram as cenas de combate. Os efeitos especiais para os tiros de balas traçantes e as explosões eram um tanto multicoloridos e, em alguns momentos, parecia que víamos um combate digno de  “Star Wars”. Esteticamente bonito, mas um tanto forçado. Outra curiosidade foi ver Brad Pitt falando em alemão, em contraste ao sotaque caipira de “Bastardos Inglórios”, aquele delírio divertido do Tarantino.
Quais as virtudes da película? Todo e qualquer filme que denuncie os horrores da guerra já é em si algo muito positivo. Embora não tenha o realismo daqueles trinta minutos iniciais de “O Resgate do Soldado Ryan”, o cenário da guerra foi bem reproduzido, onde um ambiente que nutria total desprezo pela existência humana unia aliados e nazistas. São emblemáticas duas situações. Numa delas, Roman limpa o sangue dentro do tanque depois que o corpo de seu antecessor é removido. No meio da poça de sangue, há um pedaço de rosto. A segunda situação mostra um corpo esmagado no meio da lama sendo mais destroçado ainda pelos tanques que passam. O filme também denunciou o uso cada vez maior de jovens nos campos de batalha, quando os exércitos já estavam bem exauridos, seja do lado dos aliados, seja dos nazistas. Os horrores da guerra eram mostrados em ambos os lados. Se os nazistas enforcavam alemães que se recusavam a combater, os aliados matavam indiscriminadamente soldados que já haviam se rendido, cometendo claramente crimes de guerra, embora toda a matança sempre fosse legitimada com a máxima de “matar ou morrer”. Mas o momento mais interessante do filme, que talvez tenha levado a uma reflexão mais profunda, foi a frase do sargento Don a Roman depois de lhe apresentar uma sala com membros da elite nazista que haviam se suicidado: “os ideais são belos, mas a História é violenta”. Uma passagem tocante é a aquela onde os soldados de Don se recordam, cheios de lágrimas nos olhos, que foram obrigados a matar cavalos para que os nazistas não o aproveitassem, enquanto matavam soldados nazistas indefesos às gargalhadas (sobretudo os da SS), exibindo os paradoxos da guerra.

Dessa forma, “Corações de Ferro” é um filme de guerra típico, com todos os clichês que estamos acostumados a ver nessa situação. Mas o filme também tem suas atrações e virtudes como o fato de não recair na dicotomia bem X mal entre aliados e nazistas. Vemos nazistas tomando atitudes nobres e aliados tomando atitudes odiosas, algo que somente nos lembra de como a guerra desumaniza o ser humano, seja de qual lado ele for, mas que também o humano em sua essência pode sobreviver em situações de adversidade total. Vale a pena dar uma conferida.

Cartaz do filme


Don, um sargento extremamente duro


A equipe do "Fury"


Roman e Don. Relação conflituosa


Amor impossível




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Impressões Sobre o Oscar 2015

Impressões Sobre O Oscar 2015.
E “Birdman” foi o grande vencedor da noite do Oscar 2015. O filme dos longos planos-sequência ganhou quatro estatuetas (filme, diretor, roteiro original e fotografia), consagrando o diretor Alejandro Iñárritu e dando uma espécie de “bicampeonato” de diretores para o México, já que no ano passado, outro diretor mexicano, Alfonso Cuarón, levou a estatueta por “Gravidade”. Outro filme que fez bonito foi “Grande Hotel Budapeste”, levando também quatro estatuetas, mas por prêmios técnicos (maquiagem, trilha sonora, direção de arte e figurino). “Whiplash” veio em seguida com três estatuetas (ator coadjuvante, mixagem de som e montagem). Todos os prêmios pareceram muito merecidos.
No mais, Eddie Redmayne ganhou a estatueta de ator por “A Teoria de Tudo”, mas não seria nenhum escândalo se Michael Keaton ganhasse. Julianne Moore era barbada para melhor atriz. Patricia Arquette, outra barbada, para atriz coadjuvante (foi lamentável ver “Boyhood” ganhar apenas esse Oscar, já que o filme teve uma proposta interessantíssima que foi a de filmar por doze anos, onde víamos os efeitos do tempo nos protagonistas.). Também foi chato ver “O Jogo da Imitação” ganhando só o roteiro adaptado. Uma grande pena “Foxcatcher” não ganhar nada. Merecia a maquiagem, pois Steve Carell estava irreconhecível como John Du Pont. A injustiça contra “Selma” foi parcialmente reparada com o Oscar de Melhor canção e lágrimas de David Oyelowo e até de Chris Pine, o capitão Kirk atual; só não se sabe se foram sinceras ou interpretadas. Muito legal foi ver “Operação Big Hero” e “Feast” ganhar as estatuetas de longa e curta de animação. “Feast” era o desenho do cachorrinho comilão que foi exibido antes de “Operação Big Hero”. Um prêmio merecido para “Interstellar” por efeitos visuais, onde o cinema imaginou um Universo em quatro dimensões. Com relação ao filme estrangeiro, “Ida”, filme polonês em preto e branco, com maravilhosa fotografia, ganhou de forma merecida, embora eu torcesse para o filme russo “Leviatã”. O Brasil tomou mais um sacode em longa de documentário. “Sal da Terra”, que fala do fotógrafo Sebastião Salgado e foi dirigido pelo filho do fotógrafo e por ninguém mais do que o lendário diretor alemão Win Winders, perdeu para “Citizen Four”, que falava sobre Edward Snowden, favoritíssimo por sinal (o Brasil realmente sempre dá um azar danado em matéria de Oscar). Ah, o “Sniper Americano” ganhou só em edição de som, um premiozinho técnico, talvez por contemplar a alta bilheteria nos Estados Unidos.
O grande momento da festa, sem dúvida foi a homenagem aos cinquenta anos de “A Noviça Rebelde” com Lady Gaga, lindíssima, com uma voz perfeita, cantando algumas músicas do lendário filme, com depois a doce presença de Julie Andrews no palco.
O que podemos dizer da premiação? Parece que buscou-se contemplar vários filmes, não concentrando as estatuetas em apenas poucas películas. Dessa forma, muita gente ficou feliz. Os indies (independentes) também tiveram muito espaço na premiação esse ano, o que é algo interessante, pois a diversidade e a variedade são contempladas. Só é de se lamentar que a maioria dos indicados tenha sido de homens brancos (ainda não engoli o que fizeram com “Selma” e com “Invencível”, da Angelina Jolie, que também não ganhou nada). De qualquer forma, discursos políticos marcaram a festa. Patricia Arquette lembrou que as mulheres têm salários menores que os homens nos Estados Unidos. A luta dos negros pelo direito de voto foi lembrada na premiação da canção “Glory”, de “Selma”. Iñárritu pediu que os mexicanos escolhessem seus líderes com mais consciência. O roteirista de “O Jogo da Imitação” confidenciou a todos que tentou o suicídio quando jovem, pois não se sentia encaixado em lugar nenhum na sociedade e estimulou os que sentem o mesmo a lutar e buscar um lugar ao Sol. Bonitos discursos.

Assim, posso dizer que valeu a pena ficar acordado até duas e meia da manhã para ver os filmes assistidos no cinema durante as férias receberem suas premiações. Ah, e outra certeza: odeio mortalmente os paredões do Big Brother Brasil que mutilam a transmissão da festa do Oscar todos os anos. Deprimente. É duro ser cinéfilo em terras tupiniquins...


Alejandro Iñárritu, o grande vencedor da noite. 


Eddie Redmayne, melhor ator


Jullianne Moore, melhor atriz


Oscar merecidíssimo de ator coadjuvante para J. K. Simmons


Patricia Arquette defendendo as mulheres nos Estados Unidos



Boa participação de Lady Gaga...



,,, e de Julie Andrews.



David Oyelowo foi às lágrimas na premiação de "Selma"





domingo, 22 de fevereiro de 2015

Resenha de Filme - Dois Dias, Uma Noite

Dois Dias, Uma Noite. Novamente, A Face Maldita Do Capitalismo.
Mais um filme que aborda da crueldade do sistema capitalista. “Dois Dias, Uma Noite” tem uma indicação para Oscar de melhor atriz para Marion Cottilard que, diga-se de passagem, já ganhou um Oscar em 2008 interpretando Piaf. Dessa vez, a atriz interpreta Sandra, uma trabalhadora de fábrica na Bélgica, que adoece e passa alguns dias em casa. Seu patrão irá fazer com que os demais trabalhadores do setor onde Sandra trabalha cubram as horas que a moça está faltando, dando-lhes um bônus de mil euros. Com isso, o patrão percebeu que poderia aumentar a carga horária de seus empregados e demitir Sandra, cortando custos. Mas Sandra já se recuperou de sua doença e quer voltar a trabalhar. O problema é que, se ela voltar ao trabalho, os seus colegas perdem o bônus de mil euros. Tudo isso será decidido numa votação entre os trabalhadores. Caberá a Sandra, então, visitar seus colegas em um fim de semana, para convencê-los a abrir mão de seus bônus para ela ter seu emprego de volta.
Pela sinopse, dá para perceber que o clima do filme é extremamente tenso, não havendo mocinhos e bandidos, apenas vítimas do sistema. O capitalismo, mais uma vez, é coroado (com todos os louros, diga-se de passagem) o grande vilão da situação. Já falamos aqui de outros filmes que abordam como o neoliberalismo, há alguns anos atrás, e a crise mundial em anos mais recentes, achatam a classe trabalhadora e, por que não, toda a sociedade em si. Enquanto Sandra luta desesperadamente pelo seu emprego, sob pena de perder até o lugar em que vive, as pessoas que votarão pelo futuro da moça também são muito vulneráveis a perdas. Algumas se solidarizam e a ajudam, enquanto que outras não podem fazer isso, simplesmente por falta de opção e que precisam desesperadamente desse dinheiro extra. Toda essa situação só provoca um verdadeiro desmoronamento emocional em nossa protagonista, que se culpa a cada visita, quando ela percebe que provoca brigas internas dentro dos lares pelos quais passa. É algo totalmente cruel e doloroso para todos. Um individualismo exacerbado do tipo “o meu pirão primeiro” que o sistema provoca, levando a todo o tipo de tensão.  Há, inclusive, um dos funcionários da fábrica que faz uma propaganda contrária à Sandra, induzindo seus colegas a votarem pelo bônus.
Não é preciso nem dizer que o filme orbita em torno de Marion Cottilard, que realmente deu um show. Sua cara simultaneamente doce e abatida nos dá muito dó. Apesar da também boa atuação de Fabrizio Rongione como Manu, o marido de Sandra, não dá para não reconhecer que vemos um filme de Sandra, sobre Sandra e para Sandra. Sandra, a frágil. Sandra, a lutadora. Sandra, que se indigna com a injustiça contra ela e contra seus amigos. Uma personagem forte e delicada ao mesmo tempo. Tudo de bom. E um vilão invisível, mas muito presente, com táticas sórdidas de divisão das pessoas, para que ele possa expandir todos os tentáculos malignos de sua exploração sobre os menos favorecidos.

Já cansei de falar neste meu humilde espacinho da importância maior dos filmes, que é a de fazer pensar, ideia já mencionada pelo grande cineasta polonês Andrzej Wajda. E “Dois Dias, Uma Noite” cumpre esse propósito ao lado de filmes como “Miss Violence” e “Segunda-Feira ao Sol”, já resenhados aqui. Tais filmes são extremamente necessários, pois nos identificamos com eles, são filmes de denúncia, que gritam para acordar a gente sobre os rumos pelos quais conduziremos nosso mundo no futuro. Filmes de alerta e reflexão. Filmes que devem ser sempre vistos e celebrados. Não deixem de assistir, não importa a forma, seja nas telonas, no aparelho de DVD, blu-ray, ou nos canais (bons) de TV a cabo...

Cartaz do filme


Sandra. Vítima do sistema.


Futuro incerto.


Conseguindo convencer alguns amigos...


Mas, com relação a outros...


Em algumas casas, sua presença destruiu relacionamentos...



Momentos de muita fragilidade...


Ambiente tenso no dia da votação...


Essa excelente atriz concorre ao Oscar hoje. Será que ela consegue, com filme tão agressivo ao sistema?

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Resenha de Filme - Sniper Americano

Sniper Americano. Dificuldades Em Tempos De Guerra E Paz.
Mais um candidato ao Oscar este ano. “Sniper Americano”, de Clint Eastwood, concorre a seis estatuetas (filme, ator para Bradley Cooper, roteiro adaptado, montagem, edição de som e mixagem de som). Esse filme mexe na turbulenta história recente dos Estados Unidos da era de Bush e do terrorismo. Uma história real e trágica, que conta os horrores de uma guerra recente mal exposta pela mídia, criando uma geração de veteranos sem voz numa sociedade com livre acesso à informação, por mais paradoxal que isso possa parecer.
Vemos aqui a história do texano Chris Kyle (interpretado por Bradley Cooper), um rapaz do campo que dividia o seu tempo entre a fazenda da família e rodeios onde ele montava cavalos. Sua vida parecia meio que sem rumo até que um dia ele viu no plantão do telejornal um atentado a uma embaixada americana na África. Isso despertou no cowboy o desejo de defender o seu país dos “inimigos dos Estados Unidos” tal como era apresentado no telejornal. Assim, ele irá tardiamente (beirava os trinta anos) se alistar nos SEALs da Marinha e ser submetido a rigoroso treinamento. Enquanto se preparava para os reais campos de batalha, ele se casou e houve o atentado às torres gêmeas. Isso só atiçava seu patriotismo contra os tais inimigos. Até que o moço foi enviado ao Iraque, ocupando inicialmente o posto de franco atirador, já que tinha muita experiência com armas e miras, pois caçava nos bosques com seu pai quando era criança. O problema é que ele começou a matar muita gente e ficou conhecido pelos soldados como “Lenda”. Isso fazia com que ele se sentisse na obrigação de continuar na guerra, voltando novamente para os campos de batalha com o objetivo de defender a América, para o desespero de sua esposa e filhos.
O filme peca por retratar os iraquianos como verdadeiros vilões, onde ninguém presta. Eles se comportam como inimigos dos americanos. Todos, com raríssimas exceções. Um sheik chega a ajudar os invasores, mas desde que eles lhe paguem cem mil dólares.  A trama passa uma ideia bem maniqueísta da coisa. Mas a história também tem suas virtudes. Se ela recebeu algumas críticas por não julgar os atos do protagonista, também devemos nos lembrar que a construção da ideia do inimigo aparece em sutis momentos ao longo da vida de Chris, como no almoço em sua infância onde o pai fala de carneiros (pessoas boas sem agressividade), lobos (pessoas extremamente agressivas) e cães pastores (pessoas que defendem os bons sendo agressivos com os inimigos), ressaltando que em sua família não haverá carneiros, mas sim cães pastores. A retórica do inimigo também aparece no telejornal que rotula os terroristas que destruíram a embaixada americana como “inimigos da América”. Todas essas ideias aparecem em alguns pontos do filme e fazem a cabeça de nosso personagem principal. O questionamento de se estar no campo de batalha também é nítido, sobretudo na figura do irmão de Chris. Os dois se encontram num aeroporto do Iraque, o irmão retornando para casa, nitidamente perturbado e mandando esse lugar (Iraque) para o inferno (para não dizer o que foi citado na película, de mais baixo calão), sob o olhar perplexo de Chris.
Outro elemento muito importante do filme são os efeitos que a guerra provoca em nosso protagonista. Embora aparente sempre estar totalmente protegido dos traumas de guerra, vemos que Chris realmente sofre os efeitos dos campos de batalha. Uma paranoia latente o torna distante da esposa e dos filhos. E ele só vai conseguir lidar melhor com isso quando se relaciona com os veteranos de  guerra, para aplacar seus traumas. Esse é, aliás, um grande favor que o filme nos presta. Se víamos nos telejornais a invasão das tropas americanas aos países do Oriente Médio como o Iraque e o Afeganistão, não soubemos, entretanto, dos detalhes dessa guerra. E “Sniper Americano” nos alerta da existência de veteranos da invasão do Iraque, mutilados em seus corpos e almas. Uma coisa que parece que é meio que varrida para debaixo do tapete pela mídia. São poucas as reportagens que falam desses ex-combatentes americanos. E sabe-se lá o que aconteceu com os iraquianos.

Assim, “Sniper Americano”, apesar de promover certa demonização dos iraquianos, é um bom filme por sutilmente questionar uma retórica belicista e invasiva dos americanos e por abordar mais uma vez uma história real, uma tendência do cinema americano dos últimos tempos.

 
Cartaz do filme


To kill or not to kill?


O inimigo é qualquer um... Fogo!!!!


Dificuldades de relacionamento com a família


Retornando para matar mais motherfuckers!!!


Clint Eastwood. Cada vez mais um bom diretor, apesar das ressalvas neste filme...


 O verdadeiro Sniper....