Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!
Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - Última Viagem a Vegas

Última Viagem a Vegas: A Saga dos Coroas “Pra Frentex”.

O filme “Última Viagem a Vegas” já chama a atenção pelo elenco, um verdadeiro rolo compressor: Robert De Niro, Morgan Freeman, Michael Douglas e Kevin Kline. Um filme com qualquer um desses atores já valeria a pena de dar uma conferidinha no cinema. Com os quatro então... Essa comédia cheia de medalhões de Hollywood conta a história de quatro amigos de infância que conseguem cultivar essa amizade pela vida inteira, até a chamada “melhor idade”, ou falando de uma forma mais implacável, a velhice. Um reencontro entre os quatro irá ocorrer quando um deles, Billy (Michael Douglas), resolve se casar na casa dos setenta anos com uma ninfetinha de trinta e dois anos. Billy sempre foi um cara que nunca se apaixonou ou casou, para poder desfrutar da vida, sendo o mais “garotão” dos quatro amigos. Ele conta a nova aos seus amigos por celular, numa teleconferenciazinha onde eles conversam simultaneamente e acertam uma despedida de solteiro em Las Vegas, onde também ocorrerá o casório. O problema será convidar Paddy (De Niro), que enviuvou há pouco mais de um ano de sua esposa Sophie. O problema é que Paddy não aceitou a não presença de Billy no enterro da esposa. E assim, Paddy acaba sendo o mais rabugento dos quatro. Com o desenrolar do filme, ficamos sabendo também que Sophie foi disputada por Billy e Paddy na infância.  Vemos então que a trama principal gira em torno de Billy e Paddy. Mas os personagens Archie (Freeman) e Sam (Kline) também dão um ótimo tom ao filme e é delicioso ver estes caras atuando juntos, que é onde todo o roteiro se apoia. Temos ainda a boa presença de Diana (interpretada pela ótima Mary Steenburgen), uma cantora de cassino sem público que chama a atenção dos quatro sexagenários (ou septuagenários?) e contracena à altura com muita desenvoltura e elegância. Mulherão, mesmo na idade mais madura. A história ainda é permeada de situações engraçadas e lances afetivos entre os velhos amigos, onde cada um dos grandes atores tem o seu espaço de atuação bem reservado, quando eles podem mostrar todo o seu talento. A gente vê o filme, se delicia com bons atores na tela (ah, o verdadeiro cinema, onde a gente vai ver o ator que a gente gosta e não uma sucessão de efeitos especiais e imagens iguaizinhas as dos videogames caseiros!), se emociona, ri bastante e sai do cinema com a sensação de que o dinheiro pago na bilheteria valeu! Hollywood desperdiça muito celulóide, mas quando quer fazer algo legal, faz, e bem. Vale a pena dar uma olhada neste filme. Vá ao cinema, vejam esses caras atuando em grande forma, riam com eles, sejam cúmplices de suas estripulias, divirtam-se bastante com suas piadas, pertençam ao universo dos quatro velhos amigos. Você vai sair do cinema satisfeito e levinho...

Cartaz do Filme


Os caras!!!!!


Mary Steenburgen, a Diana (é ou não é um mulherão?)



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - Feito Gente Grande

Feito Gente Grande: Crescemos Mesmo?

Mais um filme francês. “Feito Gente Grande” conta a história de uma menininha, Rachel (interpretada por Juliette Gombert), filha única de uma família judia, que passa a fazer sessões de análise, já que dorme praticamente de uniforme e pasta da escola nas costas. Os pais, por serem judeus e pelo filme passar no início da década de 1980, tiveram uma infância difícil em virtude das perseguições da Segunda Guerra Mundial (o pai, inclusive, foi sobrevivente de Auschwitz), o que faz com que a menina nunca possa pedir um brinquedinho mais carinho ou um conforto a mais, já que os pais tiveram uma infância de tanto sofrimento e a mãe acha que a filha deve ser condicionada desde cedo a abraçar causas sociais como combater a fome na África. A partir das sessões de análise (tendo como psicóloga a atriz Isabela Rosselini), Rachel começa a pôr as coisas em ordem. E a sua vida se transforma mesmo na escola, ao conhecer a amiguinha Valérie (Anna Lemarchand), uma menina muito espevitada, filha de mãe separada, não tão protetora quanto os pais de Rachel. O barato desse filme será, então, a interação entre essas duas famílias e, principalmente o relacionamento Rachel-Valérie e como esse relacionamento muda as duas meninas. Tudo isso dentro da visão das crianças, num universo infantil que torna o filme bonitinho e fofinho. Vemos, então, situações como a paixão de Valérie pelo pai de Rachel, o quase caso entre o pai de Rachel e a mãe de Valérie, a mãe de Rachel revigorando seu casamento depois que a mãe de Valérie diz que o marido realmente ama muito a mãe de Rachel, o voyeurismo de Rachel e Valérie ao virem a sua professora se relacionando sexualmente com o professor de educação física, as primeiras expressões de baixo calão faladas pelas menininhas, etc., tudo isso num ambiente lúdico e de inocência que contrasta às vezes com expressões mais pesadas, o que dá um tom gostosinho de humor ao filme. Tudo seria muito legalzinho não fosse pelo destino de Valérie, que morre devido a complicações de uma cirurgia de apendicite (complicações essas surgidas em virtude de sua hipertrofia no coração, ao que Valérie dizia inocentemente que tinha um grande coração!), sendo uma dose de choque de como a vida pode ser cruel às vezes, desmoronando todo o castelo de cartas de uma visão mais prosaica e amena das crianças. Outro detalhe que chama a atenção está no fato de que os próprios adultos revelam ter suas inseguranças, principalmente a mãe de Rachel, Colette (interpretada por Agnès Jaoui), numa mostra de que não é só as crianças que precisam de sessões de análise. Fora isso, temos uma comediazinha leve, despretensiosa, que aborda muito o Universo infantil. Uma sessão da tarde à francesa em pleno Estação Botafogo. É isso que a gente pode dizer de “Feito Gente Grande”. Entretenimento leve. Como dizia aquele locutor ancestral, “simplezinho, mas bonitinho”. Nada mais que isso...

Cartaz do Filme


Valérie e Rachel


Isabela Rosselini, a psicóloga


Rachel com seus pais.


Pai de Rachel entre irmão e mãe de Valérie.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - Uma Estranha Amizade

A Estranha Amizade das Gerações.
“Uma Estranha Amizade”. Será mesmo? O título em português de “Starlet” me pareceu muito infeliz, já que o filme fala sobre a amizade de um moça jovem com uma idosa como se não pudesse existir esse tipo de amizade por aí. Mas, bom, deixa para lá. Esse filme conta a história de Jane (interpretada por Dree Hemingway, bisneta do Ernest Hemingway mesmo!), uma mocinha que trabalha no mercado erótico fazendo filmes e outros trabalhinhos na área (exceto prostituição!), que vive com sua amiguinha Melissa (interpretada por Stela Maeve) e o namorado de Melissa, Mikey (interpretado por James Ransone). Jane banca o aluguel da casa, enquanto Melissa e Mikey se drogam e jogam videogame. Ah, tinha o simpático cachorrinho de Jane, Starlet, que dá nome ao filme e tem participações decisivas no enredo! A história começa quando Jane quer fazer mudanças em seu quarto e vai naqueles brechozinhos que os americanos armam nos jardins de suas casas. Jane compra uma garrafa térmica na casa de uma idosa chamada Sadie (interpretada por Besedka Johnson). Ao usar a garrafa térmica como um vaso de plantas, Jane descobre muitas notas de dólar guardadas lá. E aí, Jane entra num dilema: usar o dinheiro ou devolvê-lo para a velhinha? Bom, ela faz um pouco de cada coisa. O problema é que Sadie não quis saber muito de conversa com Jane. E Jane começa a correr atrás de Sadie até conquistar a sua confiança, passando por lances como jogar bingo e até tomar com um jato de spray de pimenta da velhinha na cara. A partir daí, surge a tal da “estranha amizade”, não sem antes Starlet revelar a Melissa o bolinho de dinheiro que agora Jane escondeu em uma de suas botas. Melissa se revela uma verdadeira amiga da onça ao usar parte do dinheiro e dizer a Sadie que Jane só está próxima a ela por sentimento de culpa. Mas isso não abala a amizade entre a moça e a idosa que, apesar de passar por severas turbulências, chega até o final do filme, quando Jane e Sadie viajam a Paris, a cidade que Sadie tanto amava, mas que nunca visitou. Um momento tocante do filme está no fato de que, por ter envelhecido e parar de dirigir, Sadie parou de visitar o túmulo de seu marido. Mas Jane dá um jeito nisso, levando Sadie ao cemitério de carro. Ao final do filme, mesmo com Sadie sabendo do “roubo” do seu dinheiro por parte de Jane, ela aceita ir a Paris com a moça, não sem antes visitar o cemitério novamente. Lá, ela pede a Jane que deposite as flores no túmulo do seu marido. Foi aí que Jane percebeu que a filha de Sadie também estava enterrada lá, ao lado do pai. E aí a afeição filial de Sadie por Jane torna-se automática em nossa mente. “Uma Estranha Beleza” é um drama levinho, apimentado por pequenas alusões à indústria pornô, com uma mensagem de afeição e carinho entre duas pessoas de gerações diferentes. Mas confesso que gostei muito mais do cachorro Starlet...

   Cartaz do Filme. Olha só o cachorrinho Starlet!!!



                                              Jane (Dree Hemingway) e Sadie (Besedka Johnson)


      Gostei muito do cachorro…

sábado, 18 de janeiro de 2014

Resenha de Filme: Além da Fronteira

Além da Fronteira: Homossexualismo na Linha de Frente.
Uma história de amor impossível entre um advogado israelense e um estudante palestino. E, entre ele, muita homofobia alimentada SÓ pelo conflito árabe-israelense. Esse é o tema central de “Além da Fronteira”, uma produção de 2012 que só chega ao Brasil agora. O filme fala do estudante palestino Nimr Mashrawi (interpretado por Nicholas Jacob) que conhece num night club gay o advogado Roy Schaefer (interpretado por Michael Aloni). Os dois iniciam um affair que se transformará num caso amoroso, pois Nimr consegue uma licença de permanência em Israel como estudante para fazer faculdade em Tel-Aviv, Israel. A opção de Nimr por estudar em Israel é malvista por seu irmão, Nabil (interpretado por Jamil Khoury), que faz parte da resistência palestina contra os israelenses, inclusive guardando armas em segredo no porão da casa da família, algo que Nimr sabe e não concorda, sendo esse outro ponto de tensão entre os irmãos. Mas isso não é tudo nos conflitos entre Nimr e Nabil. Um amigo de Nimr, Mustafá (interpretado por Loai Noufi), homossexual palestino que vivia ilegalmente em Tel-Aviv e era pressionado pelo agente de segurança israelense Gil (Alon Pdut) a dar informações, acaba sendo extraditado para a Palestina por Gil e é assassinado por Nabil. Nimr mantém seus encontros secretos com Roy (Nimr esconde de sua família o homossexualismo), mas o estudante palestino passa a ser pressionado por Gil para delatar possíveis atividades terroristas dos palestinos em Tel-Aviv. Para convencer Nimr, Gil consegue cassar a licença do palestino e ainda ameaça contar a família do estudante sobre seu homossexualismo. Mas o “serviço de informações dos palestinos” é mais rápido e Nabil descobre o homossexualismo do irmão. Cabe aqui fazer uma pequena pausa na história para analisarmos como o filme abordou a questão do homossexualismo nas sociedades palestina e israelense. Na sociedade israelense, Roy apresenta Nimr aos seus pais, que vivem de uma forma bem burguesa e os pais têm consciência do homossexualismo de Roy, embora não o aceitem de todo, com uma resistência maior da mãe de Roy. No caso da família de Nimr, ele foi obrigado a esconder o homossexualismo da família e, quando foi descoberto, foi expulso de casa pela mãe e, principalmente pelo irmão, embora a irmã, em prantos pela opção sexual do irmão, não o quisesse fora de casa. Nimr implorou por perdão para seus familiares (como se sua preferência sexual fosse um crime) e ele não poderia mais retornar ao seu lar, sendo que Nabil ainda simulou o assassinato do irmão para ele não ficar mal perante seus capangas. Ou seja, o filme retratou a sociedade palestina de forma muito mais homofóbica do que a sociedade israelense (um dos países produtores do filme foram os Estados Unidos, o que ajuda a explicar essa visão tendenciosa). Os judeus numa civilidade burguesa, levemente intolerante. Os palestinos na barbárie homofóbico-religiosa sem limites. Sem ter para onde ir, Nimr se esconde na casa de Roy, até o momento em que os dois veem na TV a invasão a casa de Nimr e a apreensão de armas. Roy fica indignado por Nimr não ter relatado esse detalhe em sua família e eles se desentendem, com Nimr saindo sem rumo pelas ruas de Tel-Aviv. Mas Gil trata Nimr como um caso de queima de arquivo, pois tem medo que o palestino denuncie sua chantagem. Assim, Nimr será perseguido e somente escapará com a ajuda de Roy, vai atrás de Nimr, depois de receber uma visita dos capangas de Gil. Roy salvará Nimr e se sacrifica para que o estudente consiga fugir para o exterior.
O filme tem o mérito de expor toda a crueza do conflito árabe-israelense e toda a intolerância de parte a parte, quando o tema é o homossexualismo. Tem também a coragem de mostrar cenas leves de sexo entre Nimr e Roy, algo que ainda choca o grande público. Ainda, o personagem de Mustafá é interessante, pois deve ser uma das primeiras vezes em que um homossexual de origem árabe-muçulmana é representado de forma tão afetada, com Mustafá inclusive vestido de mulher. Entretanto, o filme peca por mostrar uma sociedade israelense mais “civilizada” que a palestina, que rechaça o homossexualismo com muito mais violência, como se não houvesse uma homofobia do mesmo nível também em Israel. No caso dos judeus, os homofóbicos extremos estavam no núcleo mais “gorila”: a agência de segurança israelense, principalmente na figura de Gil. Mas no caso dos palestinos, essa homofobia era vista em toda a sociedade, inclusive no choro compulsivo da doce irmã de Nimr. Isso nos deixa um pouco indignados...

Cartaz do Filme


Nimr e Roy

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - A Grande Beleza

Hoje vamos falar do filme que ganhou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro...

Onde Está a Grande Beleza?

Superficialidade. Futilidade. Decadência burguesa, diriam os marxistas mais antigos e inflamados. Todos esses adjetivos podem nos ajudar a explicar a história de “A Grande Beleza”, filme italiano de Paolo Sorrentino. Vemos aqui a saga do escritor Jep Gambardella (interpretado por Toni Servillo), um escritor de um só livro que se tornou um grande best-seller. Mas isso foi há vários anos e, desde então, Jep é uma figurinha fácil na alta sociedade romana, participando de festas badaladas e noitadas. Quando chega aos 65 anos, Jep percebe que perdeu muito tempo de sua vida nesses eventos com a alta burguesia da cidade de Roma e busca recuperar seu tempo perdido. Entretanto, Jep percebe que nada mais possui uma beleza, uma vivacidade, não há mais como buscar uma arte, uma essência. E vemos um desfile de Jep pela noite de Roma, praticamente “juntando os cacos” de sua existência. Mas, por mais que ele busque recuperar alguma coisa que possa dar um significado para a sua vida, Jep se vê num labirinto insolúvel mergulhado num mar de mediocridade. Quem busca fazer algo mais significativo fracassa, como o amigo de Jep, que ainda tenta alavancar alguma manifestação artística no teatro, mas não é bem sucedido e retorna para sua cidade natal, pois constata o “estado terminal de Roma”. Ainda, Jep inicia uma relação afetuosa com a filha de um antigo amigo seu, Ramona (interpretada por Sabrina Ferilli), uma cinquentona que é stripper. Esse relacionamento, só no campo platônico, acaba sendo interrompido pela morte de Ramona, no naufrágio do Costa Concórdia. Podemos perceber o tom altamente pessimista do filme no que se refere a uma crise de criatividade na área artística. Mas nem tudo era somente decadência e mediocridade. Jep também se deparava com antigas obras de arte graças a um amigo seu que tinha as chaves das casas de vários membros da elite romana, por ser uma espécie de empregado de confiança deles. Também merece destaque o caso de uma exposição fotográfica que um pai fez das fotos de seu filho desde a sua infância até a idade adulta, onde o crescimento do menino está todo registrado. E não podemos nos esquecer da miraculosa aparição da grande atriz francesa Fanny Ardant numa das perambulações noturnas de Jep. A simplicidade também é valorizada como dotada de grande beleza, principalmente quando Jep encontra o marido de uma antiga namorada sua, que havia acabado de morrer. Ao ler o diário da antiga esposa, esse marido descobre que Jep fora o grande amor de sua vida, pois escreveu páginas e páginas sobre ele em seu diário, enquanto que ela havia escrito apenas algumas linhas sobre seu marido com quem havia vivido muitos anos. Mas esse viúvo dá a volta por cima e se casa com outra mulher, levando uma vida simples com ela, algo que é muito elogiado por Jep. Há ainda uma crítica velada a Igreja Católica onde a vida pomposa de um cardeal é contraposta a vida de uma irmã de caridade na África, que fez voto de pobreza e que diz a Jep que só come raízes, pois é importante ter raízes na vida. Ao fim, Jep chega a conclusão de que, embaixo de toda a mediocridade e blá-blá-blá da sociedade decadente que ele testemunha está a verdadeira essência, estão as raízes, a verdadeira beleza. O filme termina com um passeio da câmara pelo rio Tibre, passando por várias pontes, meio que sem rumo. Apesar de um grande pessimismo que o filme espelha, podemos dizer que a “Grande Beleza” ainda está escondida por aí, ainda podemos achá-la, embora ela esteja mergulhada num grande mar de mediocridade... Só um pequeno detalhe: as semelhanças entre esse filme e “La Dolce Vita”, de Fellini são muito grandes, pois também havia uma crítica muito forte a vida ociosa da alta burguesia no filme de Fellini.

Cartaz do Filme


Jep numa dancinha






Momentos de Ócio da vida de Jep...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - Álbum de Família

Fotos Rasgadas de um Álbum de Família.

Será que existe em algum lugar uma família 100% perfeita? A gente sempre acha que nossa família têm muitos defeitos e que nossos parentes nada mais são do que uma sucursal da “Família Trapo”, uma espécie de avó do “Sai de Baixo”, que existiu na TV Record há muitos anos. Não, não é possível que as outras famílias sejam da mesma forma que a minha, é o que a gente pensa. Mas, no fim das contas, parece que toda família tem seus problemas. Aliás, muuuuitos problemas! É o que nos mostra o novo filme da Maryl Streep, “Álbum de Família”. A história do filme fala do casal Violet (interpretado por Streep) e Beverly Weston (interpretado por Sam Shepard). Ele, viciado em álcool, ela, viciada em medicamentos, pois trata de um câncer na boca. Ironicamente, Violet não tem papas na língua e diz o que pensa, ainda mais quando está chapada de tomar tanto remédio. As filhas do casal não dão mais qualquer atenção para o pai e a mãe (com a exceção de Ivy, interpretada por Juliane Nicholson), que vivem abandonados numa casa escura e quente. Mas Beverly desaparece, o que obriga que todas as filhas mais a irmã de Violet, Mattie Fae (interpretada pela ótima Margo Martindale), apareçam na casa. O corpo de Beverly é encontrado, o que leva a todos participarem do funeral e a tirarem suas diferenças num jantar após o enterro. Cabe dizer que o jantar pode ser considerado o clímax do filme, onde várias situações de família são apresentadas. Situações cômicas, constrangedoras, agressivas, havendo inclusive um ataque da filha Barbara (interpretada por Julia Roberts) contra Violet, pelo fato de a filha não se conformar mais com o vício em remédios da mãe. Isso depois de Violet atacar verbalmente praticamente toda a família, por estar sob o efeito dos medicamentos. Podemos dizer que Meryl Streep deu outro show de atuação e meteu todo o cast do filme no bolso, que contou com atores conceituados como Ewan McGregor, Juliette Lewis e Chris Cooper. Um destaque aqui dever ser dado ao nosso Khan de “Star Trek, Além da Escuridão”, Benedict Cumberbatch, no papel de Little Charles, filho de Mattie Fae, altamente tripudiado por ela. Little Charles é um homem totalmente sensível e inseguro, choroso, que nada lembra o violento e maligno Khan. Pontaço para o Cumberbatch. O filme prende demais a atenção, pois o tema principal – o conflito familiar – é permeado pelos vários casos particulares desse conflito que nos trazem uma surpresa a quase todo o momento e que acabam interferindo em outras situações. Vemos nesse filme uma família totalmente em frangalhos, uma família destruída, sem mocinhos ou bandidos, apenas humanos que sentem, sofrem, que tomam atitudes corretas, mas também que erram, e muito. Familiares que se afastam uns dos outros e que não sabem mais nada do que acontece com seus parentes, como no caso de Ivy, que nem fala de um câncer que teve para as suas irmãs. Só Violet é que sabe de tudo o que se passa em sua família. “Álbum de Família” (que um jornal o rotulou indevidamente como comédia), é um filme altamente instigante, pois ele nos provoca, nos faz pensar, nos faz olharmos para dentro de nós mesmos e nos faz perguntar até onde estamos cometendo os mesmos erros dentro de nossas famílias. Às vezes, brigamos com nossos parentes, nos afastamos e só nos reconciliamos no fim de nossas vidas, quando um ente querido já se foi e todo mundo está velho e doente. Assim, “Álbum de Família” é um filme que vale muito a pena ser visto e é um caso bem sucedido de adaptação de peça de teatro para o cinema.

O cartaz do filme, com a cena da agressão de Barbara (Julia Roberts) a Violet (Meryl Streep)


Indo a caminho do enterro de Beverly


Ewan McGregor, com a barba de Obi Wan...


Ivy (em pé), Violet e Mattie Fae.


Benedict Cumberbatch, com Chris Cooper (boa atuação de nosso Khan!!!)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - Eu e Você

 Eu e Você... E Não Precisa Mais Ninguém...


Abram alas!!! Chegou o novo filme do Bernardo Bertolucci!!! Esse é um dos maiores cineastas da Itália e do cinema mundial. Um cineasta de uma sensibilidade magnífica!!! O cineasta de “O Último Imperador”. Dessa vez, em seu filme “Eu e Você”, de 2012, só chegando agora às telonas brasileiras (essas demoras dos filmes europeus em chegar por aqui estão ficando cada vez mais insuportáveis e parecem ratificar nossa posição na periferia do mundo), Bertolucci aborda a vida de um adolescente de quatorze anos, Lorenzo, que, além de possuir muitas espinhas no rosto, tem uma natureza altamente introspectiva, passando seus dias mergulhado em seu ipod que contém músicas do “The Cure”, como “Boys don’t Cry” e Red Hot Chili Peppers. Devido a essa tendência ao isolacionismo, Lorenzo tem fortes atritos com a mãe, que quer que o menino passe suas férias nas montanhas, na neve e numa estação de esqui, algo que Lorenzo rechaça prontamente em seu interior. Com isso, Lorenzo traça um plano: compra comida para uma semana e engana a mãe, fingindo ir para a estação de esqui, mas na verdade ele se esconde no porão de seu prédio, junto com sua criação de formigas (!?!?). Para Lorenzo enganar sua mãe, basta que ele passe uma semana isolado lá, claro que com seu ipod, celular e notebook. Parecia o plano perfeito, não fosse a aparição de sua meia-irmã Olívia, fruto de uma gravidez indesejada do pai de Lorenzo (um homem de alta posição social) com uma vendedora de uma sapataria. A situação fica pesada, pois a menina não tem para onde ir e se esconde no porão com Lorenzo, dando início a uma relação conflituosa, pois Olívia é cheia de ressentimentos para com o pai e a mãe de Lorenzo. Um elemento complicador é que Olívia é viciada em heroína e tem violentas crises de abstinência, rechaçando totalmente a presença de Lorenzo durante as crises. Mas o que poderia destruir a relação dos dois meios-irmãos acaba os aproximando, pois o sofrimento de Olívia faz com que Lorenzo tenha mais preocupação e afeição com sua meia-irmã e ele precisa procurar remédios para ela dormir, obrigando-o a sair para a rua, buscando esses remédios no hospital onde sua avó está internada (o único membro da família com que ele se dá realmente bem). A partir daí, a cumplicidade e carinho entre os dois irmãos só aumenta, com os dois fazendo uma promessa um ao outro: Lorenzo será uma pessoa mais aberta, que aproveitará mais a vida, não se escondendo mais (não sabemos se realmente isso ocorreu) e Olívia abandonará as drogas (também não sabemos se isso ocorreu, ainda mais porque ela termina o filme com uma dose de heroína escondida no maço de cigarros, num indício de que ela descumpriu a promessa; mas será que descumpriu mesmo? Cada espectador imagina o que quiser...). Um momento altamente tocante do filme é o abraço fraterno dos dois irmãos ao som de uma versão italiana de “Major Tom”, de David Bowie, bem lá da época do Ziggy Stardust. Momento lindo e comovente, que só o cinema pode proporcionar. O filme termina com os dois meios-irmãos se abraçando na rua e cada um tomando o seu caminho, com Lorenzo estampando um belo sorriso, fruto da experiência que havia passado, e agora com “Major Tom” em sua versão original em inglês. Singelo, tocante, afetuoso, filme digno de uma sensibilidade que só o Bertolucci tem. Bom, quem vê os depoimentos desse grande italiano em documentários sobre o Chaplin sabe que Bertolucci é um cara que possui um grande feeling do que a linguagem cinematográfica pode passar para o espectador. Sempre é uma ótima experiência ver umBertolucci. Não percam!!!!


Cartaz do Filme


Olívia (Tea Falco)



Olívia e Lorenzo.



Um garoto introspectivo e cheio de espinhas...


A afetuosidade entre os dois meios irmãos é marcante!!!!





Os jovens atores (Tea Falco, Olívia; e Jacopo Olmo Antonori, Lorenzo) com o mestre Bernardo Bertolucci.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - Ela Vai

Ela Vai... E Foi Mesmo!!!!
Você já pensou em fugir de sua rotina simplesmente andando por aí e, então, uma sequência de acontecimentos fazer com que você não consiga mais voltar para a sua vida normal de antes? Essa é a sinopse mais fiel de “Ela Vai”, um filme francês estrelado pela eterna diva Catherine Deneuve. Mesmo já na terceira idade, essa atriz ainda arranca suspiros e lembra os tempos antigos quando a gente ia ao cinema ver um filme exclusivamente por causa de um ator. A história do filme fala sobre uma dona de restaurante, Bettie (interpretada por Deneuve), viúva e que vive com a mãe, coruja como ela só. E é a própria mãe que lhe dá a má notícia: o namorado de Bettie tem uma amante. Isso faz com que Bettie entre em parafuso e, no dia seguinte, largue o restaurante em plena hora do almoço para simplesmente sair por aí de carro. A partir desse momento, o filme mostra várias situações que fogem completamente à rotina. Vemos Bettie conversando com um fazendeiro que enrola um cigarro de palha para ela (sim, o filme é uma apologia inveterada ao tabagismo, muita gente fuma nesse filme), Bettie procura cigarros para vender num night club, conhece um cara mais jovem, se embebeda e passa uma noite com ele, cujo principal defeito é ter um amigo que imita um... javali (!!!), além de outras situações. Descobrimos nesse road movie à europeia que Bettie tem uma filha com quem se relaciona mal e que precisa ir a uma entrevista de emprego. Para isso, precisa enviar seu filho para seu avô paterno. E ela, como avó materna, vai levar o neto para esse avô. A viagem, então, toma um novo rumo, onde avó e neto, que até então não se conheciam, irão começar a se relacionar, com todos os conflitos de gerações e o conflito mãe-filha interferindo no conflito avó-neto. No meio disso tudo, ainda vai haver uma sessão de fotos comemorativa as misses da década de 60. Bettie era a miss Bretanha e vai a essa sessão de fotos (aqui, podemos ver uma foto de Deneuve bem jovem, o que já vale o ingresso do filme). Um desmaio de Bettie na sessão de fotos vai fazer com que ela conheça o avô do menino, inicialmente um homem muito duro e prefeito de sua cidadezinha, mas que, com o tempo, começa um affair com Bettie. O filme ainda terá uma grande reunião familiar, onde as desavenças e diferenças serão discutidas e (parcialmente) acertadas.

Ufa! Dá para perceber que o filme é bem movimentado! A grande variedade de situações faz com que o filme não fique monótono e prenda a nossa atenção o tempo todo. Filme sem rotina e variado como a vida da própria Bettie, que teve vários relacionamentos e amantes, o que ajudava a entender os conflitos com a filha, embora a garota também fosse um pouco surtada. Assim, podemos dizer que o filme merece ser visto não só pela presença de Deneuve (só a presença dela justifica assistir qualquer filme), mas também por um roteiro que mostra uma novidade a cada minuto, em virtude da grande variedade de situações que ele apresenta. A vida de Bettie nunca mais foi nem será a mesma. Isso porque “ela foi”... e como foi!!!!

Cartaz do Filme


Bettie com o neto.


Bettie com a filha



Romance na Terceira Idade.



As misses!!!! Muito elegantes!!!!


Catherine Deneuve, ainda lindíssima!!!!

Nos áureos tempos!!!!!

UAU!!!!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - Eu Não Faço a Menor Ideia do que tô Fazendo com a Minha Vida

Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo Com a Minha Vida. E Você?

Incertezas, inseguranças, fraquezas. E a única certeza de que nós humanos temos apenas a nós mesmos. Essa é a principal lição deste filme brasileiro de título quilométrico (“Eu não faço a menor ideia do que tô fazendo com a minha vida”). A protagonista do filme, Clara (interpretada por Clarice Falcão, filha do roteirista e escritor João Falcão) é uma pós-adolescente que não tem um rumo para a sua vida. Ela é obrigada a fazer uma faculdade de medicina, por pressão familiar, mas não quer isso para ela e mata sistematicamente as aulas, numa faculdade que fica incrustada dentro de um shopping center. A impressão inicial é a de uma menina irresponsável, inconsequente, mimadinha e que leva a vida numa enorme brincadeira. Mas, pouco a pouco, essa impressão vai se desvanecendo e o filme atinge temas mais profundos como a natureza das relações humanas. Perdida num boliche do shopping, ela é encontrada por um rapaz que se interessa por ela e começa a ouvir todas as inquietações da menina, que está totalmente perdida em tudo na vida. Por não querer fazer medicina, Clara procura pensar em outras profissões para a sua vida. E, nessa procura, ela começa a ter um contato mais próximo com seus familiares, que exercem diversas profissões. Ao invés de saber um pouco mais sobre profissões, ela passa a conhecer mais a vida de seus parentes e suas inquietações, algo que lhe era vedado, pois seu próprio pai se afastou de sua família. Falando nisso, a relação entre Clara e seus pais era asséptica e distante, algo que nos ajuda a entender porque Clara é tão indecisa em sua vida. Apesar de o filme ter uma sinopse que se aproxima muito mais de um drama, temos na verdade alguns momentos de uma boa comédia, pois sentimos que as situações do filme soam muito familiares para o público, que acaba até rindo de si próprio. A situação torna-se mais tensa quando o pai descobre que a menina mata as aulas, o que provoca a ida da mãe para a casa de uma amiga (e isso depois de os pais reatarem, muito mais em virtude de a menina ter um núcleo familiar do que qualquer coisa). O pai a pune com um castigo que é não ver televisão no quarto (apesar de a menina não fazer isso há muito tempo, numa mostra do distanciamento da relação entre pai e filha). Clara reage tendo um conversa severa com o pai reclamando de todo o distanciamento da relação familiar que o pai provocou, o distanciamento com os parentes provocado pelo pai, a desistência de pai e mãe na busca pela felicidade, etc. O pai, então, pede desculpas e fala para a filha o título do filme, numa mostra de que a jovem Clara não é a única indecisa na trama. Pois é. No fim, todos somos humanos, não temos certeza de nada sobre o que fazemos e temos um medo desgraçado de errar em nossas decisões. Mas aí fica o que o avô de Clara (interpretado por Daniel Filho) disse: vamos errar muito na nossa vida, mas não podemos ter medo disso. Um de seus amigos, que aparentemente tomou todas as decisões corretas na vida, era o cara mais chato que ele havia conhecido. Por isso, não importa a idade, a experiência ou capacidade que tenhamos adquirido ao longo da vida; sempre estamos sujeitos a escolhas erradas e precisamos enfrentá-las. E, para podermos levar esses revezes numa boa, precisamos da ajuda das pessoas, que passam pelos mesmos problemas. Uma bela lição de vida num filme aparentemente despretensioso, fofinho e engraçadinho. Ah, a e presença da Clarice Falcão já vale muito!!!! 

Cartaz do Filme

A bela Clarice Falcão: Futuro Promissor...

Com Leandro Hassum...

Clara busca um rumo para a sua vida...

domingo, 12 de janeiro de 2014

Resenha de Filme - Carrie, a Estranha (2013)

Carrie e o Cyber Bullying.

E temos a nova versão de “Carrie, a Estranha”. A história de Stephen King fala de uma menina atormentada por sua mãe, religiosa ao extremo, e que comete flagelos em seu próprio corpo em virtude de seu fanatismo religioso. Como não fosse suficiente, a natureza altamente inibida e fechada de Carrie ainda é estranhada por suas colegas de escola que a hostilizam sem perdão. Desde cedo, Carrie nota que em seus momentos de desespero ela consegue mover e destruir objetos. Ela começa então a estudar telecinese (o dom de movimentar objetos com a força do pensamento) mais a fundo e domina seu dom sobrenatural de mover objetos. Pronto! Ela agora tem poderes suficientes para liquidar impiedosamente todos os seus detratores, principalmente quando recebe um banho de sangue de porco em sua festa de formatura, onde massacra sem pena todos aqueles que riem de sua humilhação. Definitivamente, o melhor filme contra bullying que já vi.  Devemos nos lembrar que esta não é a primeira versão deste filme. Há, ainda, a versão mais antiga com a Sissy Spacek (1976) e “A Maldição de Carrie” (1999). A versão de 2013 vem desta vez com elementos mais de nossa era digital, onde a atormentada menina sofre cyber bullying. Ao menstruar no banheiro das meninas e receber uma chuva de absorventes e O. B., ela também é filmada por um smartphone e um perfil dela é criado numa rede social. Um ponto interessante na história é a permissividade do pai com para com a algoz de Carrie, numa denúncia de que muitos casos de violência contra alunos nas escolas conta com a cumplicidade dos pais. É notável perceber como este problema não se limita ao sistema educacional de um ou outro país e é bem mais geral do que se parece. Assim, o upgrade de “Carrie, a Estranha” nunca foi tão pertinente quanto a questões tão atuais.
No mais, a interessante história de Stephen King torna-se ainda mais interessante pela computação gráfica e seus efeitos, algo que não existia na época do primeiro filme, com a Sissy Spacek. Carrie levanta pessoas, faz flutuar livros, camas, carros, provoca explosões, racha todo o asfalto da rua, além de lançar a cara de seus inimigs contra para-brisas, para o delírio da plateia que assistia a sessão.
Destaque deve ser dado a brilhante atuação da atriz Juliane Moore, no papel da mãe evangélica inveterada de Carrie. A gente fica com uma raiva danada da mulher, sinal de que a atuação dela é muito boa. Tal personagem nos mostra os perigos que o fanatismo religioso pode proporcionar. Pois mais absurdas que sejam as situações mostradas no filme quanto às atitudes da mãe de Carrie, nunca devemos nos esquecer de que “a vida imita a arte” e que tais atos tresloucados fictícios têm seus fundos de realidade nas profundezas de algumas almas e em lugares mais remotos (ou nem sempre tão remotos assim, pois tais coisas podem estar mais próximas de nós do que podemos imaginar).

De qualquer forma, para quem gosta do gênero terror, a nova versão de “Carrie, a Estranha” é uma boa sugestão e vale a pena dar uma conferida. Só para dar uma pequena gozadinha de leve nos fãs de Star Wars: Carrie movimentava objetos com muito mais desenvoltura do que Obi Wan Kenobi ou Anakin Skywalker...

Sinistra!!!!!

Sangue para todo o lado!!!

Juliane Moore (mãe de Carrie) deu um show!!!!

As três versões de Carrie no cinema... Sissy Spacek (1976)  parece a mais psicótica de todas!!!!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Resenha de Filme: O Estranho Caso de Angélica

Tradição, Modernidade e Ectoplasma: O Estranho Caso de Angélica.

O filme “O Estranho Caso de Angélica”, do consagrado cineasta português Manoel de Oliveira chegou a grande tela depois de muito tempo de espera. O filme conta a história de um fotógrafo judeu de nome Isaac, que é chamado às pressas para fotografar uma jovem chamada Angélica que morreu precocemente e jaz sorridente em seu leito de morte. A partir daí, a vida do pobre fotógrafo se transforma radicalmente, pois ao tirar fotos da menina morta, ela “acorda” e dá sorrisos a ele. Seu susto inicial vai sendo substituído por um fascínio que leva a uma paixão, chegando às raias da obsessão doentia e do desespero, pois o fotógrafo Isaac somente pode confortar sua paixão nas grades fechadas do portão do cemitério onde Angélica está enterrada. Durante o dia, Isaac anda como um zumbi sem rumo, à procura de sua amante morta, o que desperta fofocas entre as pessoas do povoado onde ele está. Devemos nos lembrar que ele é um judeu se comportando de forma estranha num povoado português onde todos são católicos praticantes, gancho que Oliveira usa para falar do estranhamento e preconceito para com o outro. Durante a noite, Isaac já está mais próximo de sua amada, pois seu pequeno quartinho de pensão está repleto de fotos de Angélica que se movimentam. E a própria figura fantasmagórica de Angélica surge na sacada buscando a alma de Isaac para dar umas voltinhas aéreas por aí. É literalmente um amor à primeira vista e uma paixão muito bem correspondida do outro mundo! Com esse êxtase ectoplásmico, a vida material de Isaac fica cada vez mais sem sentido e ele caminha a passos largos para a morte e para os braços de sua amada Angélica. Mas, além de uma inusitada história de amor, Oliveira também aborda outros curiosos temas. O motivo pelo qual Isaac está na pequena aldeia é para retratar o trabalho artesanal dos agricultores em vinhas, algo que está em vias de extinção em virtude da modernização e mecanização da agricultura. Aliás, o embate tradição X modernidade é um tema desenvolvido com muita maestria no filme. Isaac, um jovem rapaz, se interessa em registrar elementos culturais antigos, como o trabalho nas vinhas de agricultores que usam enxadas e cantarolam para manter o ritmo de trabalho. Há um trabalhador que só canta as canções, que são retrucadas por um uníssono “Pumba!” ecoado pelos trabalhadores que golpeiam o chão com as enxadas, algo visto com desdém pelos próprios moradores da aldeia que não se preocupam com suas tradições, como faz a dona da pensão onde Isaac está hospedado e que estranha o interesse do jovem fotógrafo naqueles agricultores altamente rústicos. Elementos de tradição também podem ser vistos nos preconceitos já citados que os católicos nutrem contra nosso pobre e atormentado Isaac, que é judeu. Em contrapartida, há o núcleo de modernidade do filme, este composto por homens idosos que são cientistas, engenheiros, fazem pesquisa de ponta e têm altas discussões filosóficas sobre temas que vão da política à astrofísica. É curioso notar a presença de uma engenheira brasileira neste núcleo de personagens. Será que essa personagem está dentro daquela concepção de que, para ser moderno, deve-se aceitar incondicionalmente o estrangeiro? Outro dado curioso está no diálogo entre esses renomados cientistas sobre a situação econômica de Portugal, como se toda a modernidade presente nem sempre fosse benéfica de todo. Ao analisarmos todos os elementos que permeiam esse filme, devemos aplaudir, e muito, esse diretor que é Manoel de Oliveira, pois mesmo do alto de seus 103 anos, ele continua atual, reflexivo, crítico e, acima de tudo, muito criativo. Definitivamente, é um dos grandes diretores do cinema português.

Cartaz do Filme


Isaac, um rapaz muito atormentado e apaixonado


Isaac e Angélica dando uns voos por aí


Manoel de Oliveira, o Cara!!!!