Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

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Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

sábado, 11 de abril de 2015

Resenha de Filme - O Último Ato

O Último Ato. Ensaio Sobre A Decadência.
Al Pacino está de volta (ele já estava fazendo muita falta!). O bom “O Último Ato” lança mão de todo o talento desse ator ítalo-americano. O enredo é curioso, pois tem a ver justamente com a carreira de um ator, só que de teatro. Vemos aqui a curva descendente que a carreira do renomado ator teatral Simon Axler (interpretado por Pacino) vai tomando ao longo do tempo. Ao encenar mais uma das muitas peças em sua carreira, ele esquece suas falas e começa a recitar a fala de uma peça de dez anos antes. Tomado pela crise em pleno palco, Simon se joga de lá, numa tosca tentativa de suicídio. Sentindo que não consegue mais atuar, fica com tendências suicidas e depressivas, internando-se numa clínica e fazendo sessões de análise através de teleconferências com seu psiquiatra. Na clínica, ele conhece Sybil (interpretada por Nina Arianda), uma mulher que afirma que o marido abusou sexualmente da filha e quer matá-lo com a ajuda de Simon, já que ele havia interpretado um assassino num filme, metendo nosso protagonista numa tremenda saia justa. Depois de receber alta, ele se isola numa casa no campo, mas recebe a visita da filha de um antigo casal de amigos, Pegeen (interpretada por Greta Gerwig). A moça revela que, quando menina, era perdidamente apaixonada por Simon, mas agora tem uma companheira. Mesmo assim, Simon e Pageen começam um caso, o que dá uma reviravolta na vida do ator veterano, que vai se envolver em uma série de problemas em virtude da diferença de idade e de mentalidade entre os dois. Para complicar a situação, os pais da moça vão reprovar veementemente o relacionamento e a amante de Pegeen assim como Sybil, passam a perseguir Simon.
Esse é mais um daqueles filmes que mistura gêneros. Podemos dizer que temos aqui um drama, onde Pacino se sente bem confortável para atuar, principalmente quando vemos o histórico de seus personagens. Ele interpreta com maestria os homens atormentados, cheios de caras e bocas de expressões perdidas e desoladas. Tudo isso está lá e se torna mais convincente ainda com os traços da idade do ator. Mas o filme também tem traços de comédia, onde algumas situações engraçadas arrancaram bons risos da plateia. Talvez esse extrato de comédia tenha sido colocado para amenizar o forte traço de crise existencial do ator, que realmente sofre com sua situação de estar no limbo da carreira. Ele não quer mais atuar e se dedicar a sua Pegeen, mas ao mesmo tempo, a grana falta e ele precisa assumir compromissos profissionais. Entretanto, as ofertas que surgem lhe parecem humilhantes para sua carreira, como fazer um anúncio para produtos de queda de cabelo. Há um convite para ele interpretar “Rei Lear”, na Broadway, mas ele está relutante, até porque esse convite só apareceu depois que ele se atirou do palco.
Um detalhe interessantíssimo do filme era uma espécie de delírio que ele tinha onde ele visualizava situações que, a princípio, pareciam reais, mas que eram alucinações da cabeça do ator. E aí, embarcávamos nessas alucinações junto com ele. Chega uma hora em que não sabemos mais o que é real no filme ou o que é alucinação de Simon. Essas alucinações tinham um fundamento. Nas palavras do próprio Simon, depois de passar a vida inteira atuando, ele não conseguia ver mais sua experiência cotidiana de vida fora desse contexto. E aí, ele vivia numa espécie de vida paralela, onde sua imaginação trabalhava para que essa vida fosse uma encenação permanente de uma peça ou filme.

Assim, a gente pode perceber que “O Último Ato” é um filme cheio de bons elementos, muito bem cimentados pela presença de Al Pacino. É aquela velha história já cantada aqui muitas vezes. O bom cinéfilo, daqueles que tem celuloide correndo nas veias (e não DVD, porque ele trava de vez em quando), ainda vai ao cinema para ver o filme do ator A, ou ator B, mesmo que o filme possa parecer uma porcaria no trailer. O nome de Pacino já faz isso. Mas o filme não é ruim e tem uma boa história escrita, para quem gosta de um bom drama. E você ainda leva uns bons risos de brinde. Uma boa surpresa está reservada ao desfecho, mas essa fica para você ir para a sala. Não deixe de assistir.

Cartaz do filme


Simon. Vivendo uma vida paralela


Esquecendo suas falas.


As velhas e admiradas expressões perdidas


Pegeen. Dando uma nova vida para o velho ator.



Dificuldades no relacionamento.



Uma namorada inconformada


Um agente admirando o trabalho de seu ator...


Sybil pedindo o impossível.


Nos palcos da vida.


Pacino divertindo-se no set.







sexta-feira, 10 de abril de 2015

Resenha de Filme - O Amor É Estranho

O Amor É Estranho. Reviravoltas E Suas Consequências.
Imagine dois atores que representaram verdadeiros machões no cinema. Alfred Molina, o famoso Dr. Octopus do Homem-Aranha interpretado por Tobey Maguire, e John Lithgow, que apareceu como o reverendo conservador de “Footloose”, que torcia o nariz com as reboladas de Kevin Bacon. Agora imagine os dois fazendo um casal gay que já convive há 39 anos. Esse é o núcleo do bom filme “O Amor É Estranho”. Com barbas cerradas, os dois cavalheiros fazem um casal muito fofo e delicado. Ben (interpretado por Lithgow) tem galerias de arte e busca alavancar a sua carreira de pintor. George (interpretado por Molina) é professor de música numa escola católica. O casal de longa data decide ratificar sua união com uma cerimônia de casamento bem simples. Mas a sua divulgação pelo Facebook irritou o bispo, que mandou demitir George da escola. O mais curioso aqui é que o homossexualismo de George era do conhecimento de todos e nunca tinha acontecido qualquer perseguição. Até os alunos de George frequentavam sua casa na presença dos pais e de Ben. Mas a divulgação da união mudou as coisas, numa mostra de que o preconceito contra os homossexuais ainda é latente até nos países ditos mais desenvolvidos e democráticos.
Essa situação fez com que o casal não conseguisse mais bancar o apartamento onde morava e foi necessária a sua venda. Enquanto eles se estabilizavam financeiramente, foi necessário Ben morar na casa de um sobrinho e George na casa de amigos. Mas a coisa foi muito difícil. Os amigos homossexuais de George adoravam festas, noitadas e jogos de RPG do “Game of Thrones”. Já Ben enfrentava a dificuldade de ser um fardo para o filho de seu sobrinho, com quem dividia o quarto e para a esposa (interpretada pela ainda bela Marisa Tomei), uma escritora que tinha a necessidade de trabalhar em seus livros e era interrompida sistematicamente por Ben que, solitário e com saudades de George, precisava de alguém para conversar.
O filme, a princípio, pode parecer que fala da questão do preconceito contra homossexuais. A perseguição a George por parte da Igreja Católica detona toda a situação de dificuldade imposta ao casal. Mas a trama vai além disso. Vemos aqui toda a dificuldade imposta às relações humanas quando situações excepcionais ocorrem. Como disse Ben a George: “às vezes conhecemos as pessoas mais do que queremos conhecer”. Isso aconteceu quando o casal foi separado e obrigado a viver na casa dos outros. A família, fraterna e unida, começa a se transformar quando precisa abrigar parentes em sua casa, o que transforma radicalmente a rotina e as relações no espaço privado, gerando uma situação geral de constrangimento. Tudo isso provocava muito sofrimento nesse casal tão refinado e delicado, amante da boa música e da arte, que é obrigado a conviver com pessoas e mundos completamente alheios a eles. As diferenças de mentalidade provocavam choques e situações muito desagradáveis. E aí perguntamos: tem alguém com a razão nesse contexto? Ou todos são vítimas desse contexto? Me parece que a segunda alternativa é a mais crível.
Quanto aos atores, Molina e Lithgow tomam as rédeas da coisa, como é de se esperar. Eles realmente fazem um casal respeitoso e as cenas de beijos e leves amassos nem chegam a chocar tanto nossas cabeças ainda muito contaminadas por séculos de homofobia. Marisa Tomei também chamava muito a atenção como a mãe e escritora contida que tinha que pisar em ovos, lidando com os conflitos entre seu filho e Ben. Não que Ben tomasse uma posição mais belicosa, pelo contrário. Ele ficava visivelmente constrangido e abalado com as crises.

Dessa forma, “O Amor É Estranho”, dirigido por Ira Sachs, é um interessante filme que aborda questões que vão além do preconceito contra o homossexualismo e chegam às relações familiares em tempos de turbulências e crises. Isso com um casal extremamente simpático de atores lembrados por interpretarem heterossexuais firmes ou conservadores. Um excelente exercício de interpretação.

Cartaz do filme


Um casal fofíssimo!!!


Cerimônia de casamento desperta toda uma gama de preconceitos


Ben tenta alavancar a carreira de pintor


George busca sobreviver com aulas particulares


O que acontecerá com esse simpático casal??? 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Resenha de Filme - Para Sempre Alice

Para Sempre Alice. Moore, Moore E Moore.
O título acima já nos diz qual é o foco principal. A maravilhosa Julianne Moore conseguiu o Oscar de melhor atriz esse ano interpretando nessa película a linguista e professora universitária Alice Howland, que contrai mal de Alzheimer prematuramente, aos quarenta anos. Ela é casada com o médico John Howland (interpretado pelo sempre eficiente e presente Alec Baldwin) e ainda tem três filhos, dentre eles, a atriz de teatro Lydia (interpretada pela vampira Kristen Stewart). Apesar do bom elenco, nesse filme não tem para ninguém. Moore colocou todo mundo no bolso com sua interpretação, onde vemos gradativamente a professora definhando na sua doença degenerativa. No início são apenas alguns lapsos de memória. Mas, com os exames e o diagnóstico, vem o desespero, seguido por uma resignação e desânimo. E aí a espiral descendente, onde a profissional competente, mãe e esposa vai gradativamente desaparecendo, ao mesmo tempo que os familiares se esforçam para manter a memória da ente querida e sua dignidade.
O filme é muito doloroso, pois sabemos que muitas pessoas passam na vida real pelas situações lá expostas. Ele lembra das agruras que doenças cujas curas ainda não foram encontradas e que provocam muito sofrimento, deixando as pessoas num beco sem saída. Essa amarga lembrança que “Para Sempre Alice” nos traz só ratifica a importância dos avanços nas pesquisas científicas na medicina para a busca das curas de doenças tão terríveis. E a lista desses males é grande. Não podemos nos esquecer, por exemplo do câncer e da diabetes. Ainda, devemos gritar contra a busca insana dos laboratórios por lucros que, ao descobrir remédios que curam doenças graves, colocar lá nas alturas o preço de tais medicamentos. Assim, enquanto há pessoas bem favorecidas que desfrutam da tecnologia do século 21, há pessoas menos favorecidas que simplesmente morrem pela falta de acesso a tais medicamentos pela falta de condições financeiras. Mesmo que “Para Sempre Alice” não trate desses assuntos de forma tão direta, os simples devaneios que o filme provoca já o tornam tão importante.

Agora, nunca é demais repetir. A película chama tanto a atenção graças a atuação para lá de primorosa de Moore. Sentir a professora se esvaindo, sumindo, desaparecendo, gradativamente, até a sua cena final, onde ela é uma caricatura dela mesma, foi de despedaçar o coração, expressando o quanto a condição humana pode ser frágil. E de como nós temos apenas a nós mesmos e a quem nos cerca. Numa situação onde as memórias simplesmente desaparecem, preservá-las é fundamental, sobretudo para manter a dignidade da pessoa humana, a dignidade de quem simplesmente é deletado por tamanho mal que ainda não tem cura. Tomara que um dia haja. A impressão que essa doença dá é que não há uma destruição do corpo, mas sim da alma...


Cartaz do filme


No início, uma família feliz


Mas depois... Alice. Desesperada com sua doença


Carinho na filha


Fazendo de sua luta um exemplo.


Apoio no marido




domingo, 5 de abril de 2015

Resenha de Filme - A História da Eternidade

A História Da Eternidade. Uma Obra-Prima Do Cinema Brasileiro.
Nosso cinema volta e meia consegue produzir verdadeiras joias que, infelizmente, passam praticamente despercebidas do grande público. É o caso do excelente “A História da Eternidade”, escrito e dirigido por Camilo Cavalcante. A princípio, o filme parece mais um de muitos que abordam a questão da seca e da miséria no Nordeste, uma espécie de lugar comum inaugurado no cinema novo com clássicos como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Vidas Secas”. Mas, com o tempo, vemos que a película não é somente isso. A história vai girar basicamente em torno de três mulheres: uma jovem, uma adulta e uma idosa. A jovem é Alfonsina (interpretada por Débora Ingrid), a única mulher de sua casa e responsável pelas atividades domésticas, já que o pai e os irmãos trabalham duro no campo, tornando-os pessoas muito rudes, sobretudo o pai, Nataniel (interpretado por Claudio Jaborandy). A seca que assola a pequena cidade só piora as coisas. Alfonsina tem um desejo ardente de conhecer o mar e seu tio João (interpretado de forma magistral por Irandhir Santos), um homem com alma de artista, é o seu principal amigo. Há muitos atritos entre João e seu irmão, o pai de Alfonsina, pois João aluga um pequeno barraco e não tem condições de pagar. Ele procura vender o artesanato que produz numa feirinha, mas sem sucesso. Além disso, o rude pai forjado na vida dura do campo vê o lado artista de João com extremo preconceito. Para piorar a situação, João ainda tem crises de epilepsia, uma doença desconhecida na cidadezinha que é “curada” com rezas (como as crises passam, a impressão é que a reza faz passar o distúrbio).
A segunda mulher é Querência (interpretada pela lendária Marcélia Cartaxo), uma mãe que perdeu o seu filho pequeno, fruto da seca e miséria do Nordeste. A mulher sofre todo o santo dia, não quer saber de comida, tem seu semblante arrasado, vivendo trancafiada dentro de casa, não querendo falar com ninguém. Mas há um homem que a ama a sua espreita. É o cego sanfoneiro Aderaldo (interpretado por Leonardo França), que disse que não vai sair da frente da casa da moça enquanto ela não der trela para ele. A devoção de Aderaldo por Querência é comovente e, obviamente, cheia de fundo musical.
A terceira mulher é a idosa Das Dores (interpretada por Zezita Matos), que conforta Querência e é tomada de uma religiosidade profunda, sendo uma espécie de responsável pela igrejinha católica local. Mas um dia ela recebe a visita de seu neto, vindo de São Paulo. A avó dá todos os mimos para o garoto e o acolhe em sua casa. Mas mal sabe ela que o menino se envolveu com coisas erradas na cidade grande e está marcado para morrer.
Como se pode ver, há várias tramas interessantíssimas. A mais interessante e estruturada, sem a menor sombra de dúvida, é a da jovem Alfonsina, que deseja ver o mar, mas é reprimida pelo pai. João é o grande personagem do filme. Sua performance a la Ney Matogrosso com a música “Fala” dos Secos e Molhados é o momento mais tocante de toda a película. Minto. Há outro momento extremamente tocante, também, que é quando o tio mostra o mar a Alfonsina bem no meio do sertão, usando apenas a imaginação, olhos fechados e um copo d’água. A química entre a sobrinha e o tio era simplesmente extraordinária. Mas provocaria, também, uma tragédia. A história de Querência foi a menos trabalhada. Um love story do agreste. Poderia ter sido mais bem desenvolvida. Já a história de Das Dores teve um quê de desejo incestuoso, com voyeurismo da avó ao presenciar o neto deitado na cama com febre só com uma cueca bem apertada, rendendo uma ida da idosa à igreja e a um ritual de autoflagelação.
O mais curioso é quando a chuva chega. Todas as vidas dessas três mulheres sofrerão transformações radicais, como se a água transformasse a rotina daquele lugar extremamente seco e trouxesse tragédia para alguns, alegria para outros, viradas muito fortes para a vida de todos.

Só é de se lamentar que as três histórias não tenham sido desenvolvidas igualmente. Mas, mesmo assim, “A História da Eternidade” é um filme do qual nos devemos orgulhar, e muito. Um filme que merece ser muito divulgado e premiado. Um filme que deve constar da videoteca de qualquer cinéfilo que admire os melhores produtos do cinema brasileiro. Uma joia rara. Não deixem de ver. 

Cartaz do filme


Outro belo cartaz do filme


Momento precioso do filme. Dança de João a la Ney Matogrosso.


Um sanfoneiro em busca do amor. Bela fotografia.


Uma mulher que perdeu o filho


Sanfoneiro batendo ponto na casa de sua amada


Uma menina que quer conhecer o mar


Uma avó que precisa proteger o neto.


Forte química entre tio e sobrinha


Devoção que leva à autoflagelação.


A vinda da água trará transformações profundas àquela cidadezinha assolada pela seca...


O elenco com o diretor


Camilo Cavalcante recebe o troféu de melhor filme no Festival de Paulínia. Merecidíssimo.


sábado, 4 de abril de 2015

Resenha de Filme - 14 Estações de Maria

14 Estações De Maria. Tratado Sobre A Intolerância.
Um excelente filme alemão nas telonas. “14 Estações de Maria” é um duro exemplo de como a intolerância religiosa pode destruir vidas. Ou, melhor dizendo, aniquilar. É uma prova de que o mau uso da fé pode provocar imensas devastações, morte e destroçar almas. E que as armadilhas do fundamentalismo religioso, qualquer que seja a religião em questão, são mais perigosas do que se pode imaginar.
A trama é centrada em Maria (interpretada por Lea Van Acken), uma adolescente de 14 anos que faz parte de um grupo católico contrário ao Concílio Vaticano II, criado em 1965, com o objetivo de flexibilizar um pouco mais as práticas religiosas. Esse Concílio encontrou resistências de grupos mais fundamentalistas, que ainda seguiam os rígidos pressupostos do Concílio de Trento, que estabeleceram a Contra-Reforma no século 16, para combater o avanço das religiões protestantes. Assim, os que eram contrários ao novo Concílio além de celebrarem suas missas em latim, tinham um ponto de vista muito mais conservador, acreditando que eram verdadeiros soldados de Jesus contra as influências do demônio. E aí, tudo estava sob a influência do capeta, desde músicas de rock até tirar fotos ou maquiar o rosto (pecado da vaidade). É nesse contexto que Maria vai viver. Católica muito devota, ela terá que interagir com essa forma fundamentalista de catolicismo, que traçou em sua cabeça a meta de se encontrar com Deus, a ponto de a menina pensar em até abdicar da vida para isso. Apesar de ser muito dedicada à religião, Maria sofria severas repreensões da mãe (interpretada soberbamente por Franziska Weisz), que governava a família com mão de ferro e reprimindo todas as vontades de Maria, que só encontrava conforto na babá francesa Bernadette (interpretada por Lucie Aron), que tomava conta do irmão caçula e autista da família de Maria. A moça vai conhecer um rapaz, Christian (interpretado por Moritz Knapp), que a convida a cantar no coral de sua Igreja, que canta Bach e algumas músicas de soul. A recusa da mãe é violenta, o que desgasta a moça física e emocionalmente. Dessa forma, Maria passa por uma espécie de “via crucis”, onde o filme é dividido em 14 partes, tal como o martírio de Cristo. Só que dessa vez, o martírio não é provocado pela perseguição romana, mas sim por todas as situações degradantes e violentas que o fundamentalismo religioso pode provocar, massacrando a pobre mocinha impiedosamente.
O filme, ao denunciar essa forma nem um pouco salutar de se praticar uma religião, cumpre novamente seu papel social de lembrar a nós, religiosos ou não, que a intolerância é uma chama muito mais difícil de apagar do que se imagina. E que todos os cuidados devem ser tomados quanto à isso, pois tal intolerância pode aparecer em qualquer lugar e a qualquer tempo, destruindo e consumindo vidas. Vemos um claro processo de definhamento de Maria, totalmente irreversível e sem saída, pois a menina não se rebela, ela tem sempre uma postura de se culpar e se arrepender de todas as acusações que a mãe implacavelmente lhe faz. Sua posição católica altamente conservadora a afasta dos colegas de escola que inclusive lhe fazem “bullying”. E a única atitude de Maria é ir ao confessionário, onde o processo de lavagem cerebral só a faz afundar cada vez mais. É um beco sem saída, um caminho sem volta para o matadouro. E assistimos inertes, pasmos e sem reação, a toda uma gama de sofrimentos muito dolorosos e desnecessários.

Tal filme merece mais divulgação, principalmente onde o fundamentalismo se faz tão presente (ele pode estar mais perto de nós do que imaginamos). Assim, “14 Estações de Maria” é mais uma película fundamental. 

Cartaz do filme


Maria. Uma vítima de sua própria fé...


Vida de provações...


Para aplacar a dor, somente o confessionário...


Christian. Repudiado por uma Maria muito atormentada...


Maria era totalmente reprimida pela mãe extremamente opressora...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Resenha de Filme - Cinderela

Cinderela. Subvertendo A Sociedade De Antigo Regime.
A Disney nos premia com um interessante filme. A nova versão de “Cinderela” está, como é dito por aí, “bombando”. Também pudera. A direção ficou a cargo de Kenneth Branagh. Cate Blanchett interpretou a madrasta. Helena Bonham Carter fez a fada madrinha. E ainda tivemos a participação de Stellan Skarsgard como o Grão Duque do reino. Mas os atores não foram apenas os destaques dessa película. Ela tem outros atrativos.
Para começar, a história tem o mérito de mostrar a vida de Cinderela dando uma atenção maior à parte da vida da moça anterior a ela ficar sob o jugo da madrasta e se tornar a “gata borralheira”. Ela vivia com seu pai e mãe, que era dono de uma propriedade até razoável. Mas os dias de felicidade acabaram com a morte da mãe, que em seu leito de morte pediu à filha para sempre ser firme e gentil. O pai, depois de alguns anos, disse à filha que queria um novo casamento. É aí que a madrasta e as suas duas filhas entram. Desde o início, percebe-se que as três novas hóspedes vão se apropriando da casa, algo que vai se consolidar após a esperada e óbvia morte do pai. Desse ponto em diante, é a história do conto de fadas que conhecemos, com pequenas nuances aqui e ali, para tudo não ficar tão óbvio.
Por que esse filme chama tanto a atenção? Em primeiro lugar, pelas boas atuações dos atores mencionados. Cinderela, interpretada por Lily James, não tem o fardo de carregar todo o filme nas costas. Cate Blanchett e Helena Bonham Carter já valem o ingresso, dando um show em papéis bem pontuais e importantes. Os cenários e figurinos são outro destaque, belíssimos e multicoloridos, mas sem ser algo vulgar, pelo contrário até. Havia muita elegância nas roupas, muito bem trabalhadas, sobretudo a roupa da princesa espanhola prometida ao príncipe e alguns figurinos da madrasta. O vestido azul de Cinderela merece um destaque especial, com uma cinturinha tão fina que devia até passar pelo buraco de um alfinete. Uma detalhe interessante é que o filme parece nos mostrar onde é que o CGI se mostra mais adequado no cinema: em efeitos especiais de histórias de contos de fadas. Quando vemos o CGI gerando efeitos especiais que tentam reproduzir cada vez mais a realidade, sempre fica em nós uma impressão de artificialidade, por mais que a tecnologia se desenvolva. Mas, ao criar efeitos especiais para algo mais fantasioso como um conto de fadas, essa impressão de artificialidade desaparece, pois não há a intenção de reproduzir o mundo real. E aí, quando vemos as partes mais divertidas do filme – a fada jogando seus encantos e transformando a abóbora em carruagem e os bichinhos em cavalos, cocheiros e lacaios e, depois, a carruagem voltando a ser abóbora – o CGI se torna algo bem mais apreciável, sobretudo na transformação do vestido de Cinderela do rosa para o azul, onde há belíssimas imagens.
Uma discussão muito interessante que o filme e sua história há muito conhecida pode proporcionar é de como há uma subversão de valores do Antigo Regime, o período histórico em que se passa a trama de “Cinderela”. Nessa época havia uma sociedade feudal, onde há uma nobreza originada de grandes proprietários de terras no poder, compondo uma casta que não se mistura com as camadas mais baixas. Ainda, a mobilidade social, ou seja, enriquecer ou empobrecer, era algo difícil de acontecer. Pois bem, o filme mostra situações que vão contra esses modelos. A família de Cinderela era proprietária de terras, mas não eram poderosos senhores feudais. Com a morte do pai de Cinderela, a madrasta passa a ficar com muitas dívidas e ameaçada de pobreza, um indício que havia sim alguma mobilidade social nessa sociedade altamente hierarquizada. Mas a característica mais interessante desse jogo feito com as características do Antigo Regime no filme está na figura do príncipe (interpretado por Richard Madden) que, por estar apaixonado pela camponesa Cinderela, quer se despir de sua pecha de nobre. E, aí, ele subverte uma série de valores. O príncipe se apresenta como um aprendiz para a gata borralheira, ele organiza uma festa aberta não só aos nobres mas também a todos os súditos, e se oferece em casamento para aquela cujo sapatinho de cristal vai caber no pé. Ao se chegar ao já conhecido final feliz, ele chama a camponesa Cinderela de “minha rainha”, ao passo que a moça chama o príncipe, já rei, de “meu aprendiz”, sob os olhos felizes de todos os súditos do reino. É de se chamar a atenção o detalhe de que tais inversões de valores são relativamente ousadas para uma sociedade tão estratificada como a de Antigo Regime.

Assim, “Cinderela” é um programa obrigatório, pois é uma película com excelente diretor, atores, efeitos especiais, cenário, figurino, além de suscitar discussões interessantes sob o contexto histórico da trama. E um bom “blockbuster”, que diverte bastante. Ao final das contas, essa é a função principal do filme. Entreter, e muito. E ele consegue com maestria.


 
Cartaz do filme



Cinderela, a bondade em pessoa


Uma camponesa de alma livre


A madrasta e suas filhinhas


Uma fada bem porra-louca


Chegando na carruagem


Momento to baile.


Fugindo à meia-noite


Um príncipe que subverte o Antigo Regime.


Os famosos sapatinhos...