Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!
Brigitte Helm, A Deusa Eterna De Yoshiwara!!!

sexta-feira, 27 de março de 2015

Resenha de Filme - Insurgente

Insurgente. A Continuação De Uma Guerra Anunciada.
E chegamos à continuação da série “Divergente”. O filme “Insurgente” mostrará a guerra entre a facção erudita, que havia tomado o poder da facção dos abnegados e um grupo de revoltosos que inclui divergentes e os sem facção. Só para lembrarmos, no futuro a humanidade havia sido dividida em cinco facções, cada uma com sua função específica: os eruditos, os abnegados, os amigos, os sinceros e os audazes. O poder estava nas mãos dos abnegados, altruístas por excelência, preocupados em ajudar as pessoas, servindo-as como funcionários públicos. Desde já fica claro que os abnegados são a alegoria do regime democrático. Os eruditos são homens de ciência, preocupados em desenvolver as tecnologias. Os sinceros defendem a verdade e as leis. Os amigos defendem a fraternidade entre as pessoas e os audazes são os corajosos que exercem a função de polícia. Os eruditos tomaram o poder dos abnegados usando os audazes que foram sugestionados por substâncias químicas introjetadas neles pelos eruditos a tomar o poder com violência. Os divergentes são uma pedra no caminho da líder dos eruditos, Jeanine (interpretada por Kate Winslet), pois possuem vontade própria e não podem ser dominados. Nossa protagonista é Tris (interpretada por Shailene Woodley), que é 100% divergente. Há uma caixa deixada pelos antepassados humanos que criaram essas cinco facções, cujo conteúdo explicaria qual seria o melhor rumo que a humanidade deveria tomar. Os antepassados cercaram as cinco facções com um muro intransponível por 200 anos. A caixa tinha cinco lados, com cada lado tendo a marca de uma facção e ela só seria aberta se um divergente conseguisse passar por simulações de computador que espelhavam situações de todas as cinco facções. Na busca pela mensagem da caixa, Jeanine, com seu sonho de um futuro melhor, caçava divergentes para passar pelas simulações que levavam muitos deles à morte. Somente Tris, uma divergente 100%, sobreviveria às cinco simulações. Assim, os eruditos reprimiam com violência a aliança insurgente criada entre os divergentes e os sem-facção e, ao mesmo tempo, buscavam o divergente ideal para fazer as simulações e descobrir o segredo contido na caixa. E a aliança insurgente buscava arregimentar as facções para o seu lado.
Ufa, pode parecer algo enrolado, mas isso é o menos importante, já que esses filmes inspirados em best-sellers adolescentes estão mais preocupados com cenas de ação, tiroteios, pancadarias e efeitos especiais. Esse segundo filme pareceu menos empolgante que o primeiro, onde víamos toda a cosmogonia da coisa, a construção da trama. Nessa sequência, vemos mais as cenas de luta e de ação. De qualquer forma, ainda é inquietante ver os eruditos, os detentores do grande conhecimento científico, como os vilões da história, nos remetendo a uma herança positivista. O elenco também ficou mais restrito às carinhas novas. Ashley Judd, a mãe de Tris, teve apenas uma pequena participação. Kate Winslet estava magnífica mais uma vez, interpretando uma boa vilã. Naomi Watts fez a líder dos sem-facção, sendo também a mãe da paixão de Tris, Quatro (interpretado por Theo James). Ansel Elgort faz o irmão de Tris, Caleb, um erudito que passou para o lado de Jeanine (seria culpa das estrelas?). Coube à Shailene Woodley tomar as rédeas da trama, mas ela ainda está em início de carreira sendo, na minha opinião, um fardo muito grande em carregar todo esse filme nas costas. Creio que um ator medalhão mais velho entre os insurgentes ajudaria um pouco mais a história. Octavia Spencer trabalhou como líder dos abnegados, mas muito pouco.
A trama da série “Divergente” não é algo original, pois a história bebe em várias fontes. A primeira delas é a noção de estado autoritário que reprime totalmente a individualidade das pessoas, sendo o estado nazista talvez um dos melhores exemplos. A divisão da sociedade em facções com funções estritamente definidas remete a esse estado autoritário, presente de certa forma, desde “A República”, de Platão, passando pelas sociedades de Antigo Regime, indo até as ditaduras com culto à personalidade do século XX. A repulsa à vontade individual fica clara no discurso de Jeanine, que a culpa pela provocação da guerra. Assim, a sociedade de facções é uma “nova sociedade” platônica, onde cada indivíduo cumpre sua função. O discurso de um Estado autoritário que deve reprimir a ambição e vontade humanas também é visto no “Leviatã”, de Thomas Hobbes, um dos teóricos do absolutismo. Quanto às facções propriamente ditas, já mencionamos que os abnegados são a alegoria da democracia. Quanto aos audazes, fica bem clara a sua posição militarista, altamente sedutora (Tris admirava os audazes desde pequena!), como eram as sociedades fascistas que atraíam a população com seu discurso ultranacionalista e vigoroso no que se tange ao uso de força bruta para resolver situações de crise. Os eruditos, por sua vez, têm também um quê autoritário que remete a uma ideologia positivista, que prega a ideia de que os mais capacitados intelectualmente devem assumir os governos, evitando que pessoas ignorantes do povo assumam altos cargos. Como a democracia possibilita que qualquer pessoa possa subir ao poder, os positivistas têm uma pecha altamente antidemocrática.

Apesar de ser menos interessante que “Divergente”, “Insurgente” prende a atenção e é um entretenimento razoável, dando um gancho para a continuação. Mas parece que a história meio que esgotou o fôlego. Nesse quesito, o “meio-irmão” de “Divergente”, “Jogos Vorazes”, tem mais força, pois já vai para o quarto filme e tem uma trama mais vibrante. Realmente o fim de cada filme nos deixa com vontade de ver o próximo. Mas vamos esperar a sequência da série “Divergente” para podermos avaliar melhor. Por ora, deem uma conferida em “Insurgente” para não perderem o fio da meada...

Cartaz do filme


Tris, uma divergente 100%. Essa não concorda com ninguém!!!


Quatro, achacado por um audaz, é o braço direito de Tris e algo mais...


Jeanine não medirá esforços em sua busca por um "mundo melhor".


Tris e as simulações.


Caleb, do lado de Jeanine. Culpa das estrelas???




terça-feira, 24 de março de 2015

Resenha de Filme - 118 Dias

118 Dias. Pintando Um Cárcere Com As Cores Da Liberdade.
Mais um excelente filme nas telonas. E, mais uma vez, baseado numa história real. “118 Dias” tem o grande mérito de enfocar o processo eleitoral no... Irã. Um jornalista nascido no Irã, mas radicado no Canadá, Maziar Bahari (interpretado pelo sempre ótimo Gael Garcia Bernal), da “Newsweek”, foi enviado para Teerã com o objetivo de cobrir a eleição para presidente em 2009, onde o candidato de oposição tinha chances reais de vitória. Mas a situação venceu o pleito. Enfurecida, a população começou uma série de manifestações de rua reprimidas violentamente pelas forças de segurança, onde pessoas foram mortas a tiros. Nosso Maziar filmou tudo. Mas o regime opressor do Irã tem câmaras instaladas pelas ruas e flagrou Maziar filmando. Isso foi o pretexto para levar o jornalista para a prisão, que não entendia o motivo do encarceramento. Os policiais da prisão o haviam acusado de espionagem, pois ele havia gravado uma participação num programa humorístico americano onde é entrevistado por um suposto espião da CIA. Assim, os policiais o obrigaram a gravar uma confissão se declarando espião e estando arrependido de todos os seus “erros”. Boa parte do filme se passa dentro da prisão no período de 118 dias de encarceramento de Maziar, com os interrogatórios e torturas praticados pelo policial Javadi (numa ótima interpretação de Kim Bodnia). Uma guerra de nervos para ninguém botar defeito.
A película é muito boa por vários motivos. Os diálogos entre o policial que interroga e tortura e o preso que é interrogado e torturado são primorosos. O chefe de Javadi já havia o alertado para o caso de que o jornalista não deveria ser tratado com excessiva violência, pois ele é uma pessoa inteligente e a técnica de persuasão deve ser feita na argumentação e pressão psicológica. Maziar já tinha perdido o pai e sua irmã, comunistas de carteirinha, com a última sendo uma espécie de mentora intelectual do jornalista, que havia lhe apresentado muitos filmes de arte e músicas em sua infância. Durante a reclusão, vemos diálogos muito interessantes entre Maziar e seu pai, assim como sua irmã, onde as lembranças e os modos de ser dos entes queridos o ajudaram a enfrentar todas aquelas arbitrariedades. O filme também mostra como Maziar conseguiu transformar o tormento da prisão numa chance de liberdade, sobretudo quando ele sabe que há uma pressão da comunidade internacional para libertá-lo, algo que aconteceu posteriormente. O mais lamentável é que seus amigos próximos e que estavam engajados na campanha do candidato de oposição continuam presos e hoje Maziar busca formas de libertar essas pessoas sem voz na mídia.

Assim, “118 Dias” é mais uma história baseada em fatos reais que se encaixa no cinema de reflexão e de denúncia. As imagens da tela ficam mais legitimadas com fotos reais dos pais e irmã de Maziar. Mais um filme fundamental, que mostra como a luta pela democracia ainda é algo que deve ser visto com muita atenção, ainda mais num país do porte do Irã, que depois da radicalização promovida pela Revolução Islâmica (talvez não sem motivos para isso, mas ainda sim uma radicalização), viveu períodos de abertura moderada, mas que novamente se fechou em virtude da estrutura do Estado Teocrático. O processo eleitoral turbulento é a prova de que o país ainda precisa amadurecer, absorvendo a democracia, mas não se esquecendo de suas tradições. Apesar de um autoritarismo, demonizar a Revolução Islâmica parece uma explicação simples demais para tão complexo contexto. Reflexões à parte, “118 Dias” é um filme em que a presença dos cinéfilos e dos amantes de bons filmes é obrigatória.

 
Cartaz do filme


Maziar. Reencontrando-se com a mãe antes de começar seu trabalho em Teerã.

Maziar. Locomovendo-se de forma precária para fazer seu trabalho.


Maziar. Mostrando a verdade da violência policial no Irã.


Já na prisão, sendo constantemente vendado e interrogado por Javadi.


Muita pressão psicológica...


... e, às vezes, a coisa ficava meio violenta...


A irmã de Maziar foi interpretada pela estonteante Golsditeh Farahani.




segunda-feira, 23 de março de 2015

Resenha de Filme - Golpe Duplo

Golpe Duplo. Punguistas, Mutretas e Rodrigo Santoro.
Uma pequena curiosidade nas telas. O filme “Golpe Duplo” nos dá a oportunidade de presenciarmos Will Smith e Rodrigo Santoro contracenando juntos. O filme não é lá essas coisas, mas agora podemos ver o ator brasileiro fazendo o grande vilão do filme. Vocês irão logo me alertar do Xerxes, de “300”, mas, convenhamos, esse filme não conta, pois tivemos um Santoro todo tratado digitalmente. Aqui em “Golpe Duplo”, o que vale é o seu talento. Mas nosso ator apareceu pouco e teve uma atuação que oscilava entre o contido e explosões emocionais. Talvez tenha sido dado um papel muito estereotipado a ele, ou seja, um vilão latino mal e temido toda a vida. Uma pena, pois a carreira de Santoro no exterior já mostrou resultados bem melhores. Obstáculos que um ator brasileiro tem que passar para fazer seu nome em Hollywood.
Mas, e o filme em si? Vemos aqui a história de Nicky (interpretado por Smith), um vigarista de marca maior que faz parte de uma extensa equipe de punguistas, daqueles que praticam pequenos roubos batendo carteiras ou tirando anéis e relógios de suas vítimas. Tudo feito de uma forma muito coordenada que beira o artístico. Nicky irá  conhecer outra vigarista, Jess (interpretada pela bela loura Margot Robbie), que tenta em vão aplicar um golpe no experiente vigarista. Ao descobrir todos os talentos de Nicky, Jess implora para entrar no grupo, sendo acolhida por Nicky. Após uma série de mutretas em New Orleans, Nicky dá o bilhete azul para Jess e a despacha para o aeroporto. Três anos passam e agora estamos em Buenos Aires, onde um chefe de equipe de automobilismo, Garriga (interpretado por Santoro), contrata Nicky para simular uma venda de um plano secreto de combustível para as equipes rivais. Mas Jess aparecerá como amante de Garriga, o que vai colocar a cabeça de Nicky num baita curto-circuito.
A grande atração da película é toda uma série de tramoias que os punguistas aplicam para tirar vantagem dos outros. As cenas de pequenos roubos são bem coreografadas. Will Smith é sempre uma boa presença. Mas a trama realmente não decola. O affair entre Nicky e Jess torna a coisa até um tanto enjoativa. Uma ceninha de amasso entre os dois aqui e ali, Nicky atrás de Jess em Buenos Aires o tempo todo. E a coisa se repetia, repetia. Pelo trailer parece que será um filme com um pouco mais de ação. Na primeira metade da película, a coisa estava até interessante. Mas a parte de Buenos Aires ficou muito enfadonha. Um estereótipo desgraçado com imagens da capital argentina com fundo musical de salsa, algo imperdoável para o mundo globalizado de hoje. Entretanto, e para quem gosta, as cenas de diálogos entre Garriga e Nicky num suposto autódromo de Buenos Aires, tendo carros reais de Fórmula Indy passando ao fundo, ficaram muito legais. Mas o filme realmente não tem grandes atrativos.

Assim, a única curiosidade de “Golpe Duplo” fica em mais um degrau escalado por Santoro em sua carreira internacional no cinema, embora nosso ator já tenha interpretado papéis melhores. Um bom programa apenas para fãs incondicionais de Smith e Santoro.

Cartaz do Filme


Nicky e Jess. Misturando amor e negócios.


Garriga. Vilão estereotipado.


Mutretas e apostas arriscadas...


Jess e Garriga juntos deixam Nicky louco


Nas coletivas de imprensa da vida


Smith, todo "carinhoso" com Santoro...



domingo, 22 de março de 2015

Resenha de Filme - Mapas Para As Estrelas

Mapas Para As Estrelas. O Lado Trágico Do “Star System”.
Uma excelente película dirigida por David Cronenberg. “Mapas Para as Estrelas” é um filme que faz um bom exercício de reflexão sobre as mazelas do “star system” americano. É um filme para quem tem estômago forte, pois ele é de uma crueza terrível. Uma história em que todos são vítimas e culpados. Uma história em que todos surtam. Não, mais do que isso. Todos enlouquecem mesmo.
A trama inicia com a jovem Agatha (interpretada por Mia Wasikowska), uma moça repleta de marcas de queimadura pelo corpo, chegando a Hollywood e sendo recebida por um motorista de uma empresa que aluga limusines, Jerome (interpretado pelo “vampiro” Robert Pattinson). Os dois estabelecem uma amizade e a moça conta que conhece a atriz Carrie Fisher (nossa amada princesa Leia, que faz uma ponta) pelo twitter e que a indicou para trabalhar como assistente de uma atriz decadente, Havana Segrand (interpretada por Julianne Moore), que lutava arduamente para ter o papel principal no “remake” de um filme estrelado por sua mãe na década de 1960. Por outro lado, havia o ator adolescente Benji Weiss (interpretado por Evan Bird), um mala sem alça extremamente arrogante e mimado pelos pais, que são um apresentador de programas de auto-ajuda, Dr. Stafford Weiss (interpretado pelo sempre ótimo John Cusack) e Christina Weiss (interpretada por Olivia Williams). O menino estava sob os olhos da produtora em virtude de seu vício por remédios. Aliás, ser viciado em remédios parecia ser uma espécie de lugar comum para todos. Não houvesse quem não tomasse suas pílulas. Em alguns casos, como os de Havana e Benji, eles tinham alucinações. Havana via a sua mãe, desvalorizando-a e lembrando dos abusos sexuais que ela sofreu na infância feitos pelo namorado da mãe. E Benji via uma menina morta que ele visitou no hospital e era fã dele, para quem falou uma série de mentiras.
Essa breve sinopse, que não será estendida aqui por conta dos “spoilers”, já nos dá uma noção de como o filme é muito barra pesada. Mas o que foi dito aqui é apenas a ponta do “iceberg”. Temas muito mais pesados aparecem, onde a desgraça alheia pode ser a sua felicidade, o incesto é recorrente e práticas piromaníacas não são uma exceção. É uma película extremamente agressiva, onde parece que a grande maioria dos personagens perde o controle totalmente. A busca pela fama e riqueza provocam extremo sofrimento, desagregação familiar, fortes vícios, alucinações e comportamentos para lá de violentos. Não há qualquer alegria, somente um estado letárgico alternado por momentos de extrema agonia. Tudo isso faz com que o filme seja muito bom, já que ele tem a coragem de denunciar algo espinhoso que sabemos que existe no showbiz, mas não é muito contado por aí (a menos que renda vendas para revistas de fofoca, que só se interessam pelo escândalo de forma superficial). As pressões que a fama impõe, onde fica bem claro que o glamour é algo totalmente efêmero e há uma luta atroz para se manter no topo, a ponto de um adolescente tentar estrangular uma criança por causa disso, aparecem de jeito altamente contundente. Todos estão submetidos a um “star system” que estraçalha corações e mentes. E a gente se pergunta: até que ponto valem a pena a fama e a riqueza se sua vida está destruída? Mansões cobertas com luxos de todo tipo servindo a almas dilaceradas...

Assim, “Mapas Para as Estrelas” é uma película que merece ser vista e que realmente denuncia situações extremas na indústria de entretenimento dos Estados Unidos. Um filme interpretado por bons atores que fala das mazelas que alguns atores despreparados para a pressão podem passar. Um filme essencial...

Cartaz do Filme.


 
Agatha. Luvas que escondem marcas de queimaduras...


Jerome. Aspirante a ator e roteirista, além de motorista de limusines


Havana. Atriz decadente e atormentada...


Benji, um pirralho insuportável



Stafford. Programas de auto-ajuda...


Insanidade à flor da pele.


O excelente diretor David Cronenberg


sábado, 21 de março de 2015

Resenha de Filme - Duas Irmãs, Uma Paixão

Duas Irmãs, Uma Paixão. Dividindo Um Poeta Da Literatura Universal.
Um bom filme alemão na área. “Duas Irmãs, Uma Paixão” conta a história de um triângulo amoroso, onde um dos vértices é ninguém mais, ninguém menos que Friedrich Schiller (interpretado por Florian Stetter), um dos grandes escritores da literatura alemã e mundial. Veremos aqui como o poeta e escritor, um zé ninguém em termos de cabedal aristocrático, mas já valorizado por suas letras, irá conquistar duas irmãs, Caroline (interpretada por Hannah Herzsprung) e Charlotte (interpretada por Henriette Confurius), sendo que os três aceitam a condição de se amarem mutuamente, numa espécie de amizade colorida da “aufklärung” (Iluminismo). Caroline era casada, pois seu pai morreu cedo e a família ficou sem dinheiro. Por uma questão de conveniência, ou seja, para salvar a saúde financeira da mãe e da irmã, Caroline aceitou tal sacrifício. Já Charlotte sofria por não conseguir um verdadeiro amor, assim como nosso Schiller, romântico e galinha como ele só. As irmãs se amavam profundamente e fizeram um pacto em dividir Schiller entre elas, e o escritor obviamente não se opôs. Mas, apesar de ele ser considerado um gênio de sua época, chegando a se encontrar com o próprio Goethe para uma conversa (devidamente observada à distância por membros da aristocracia), nosso escritor não tinha nem profissão nem grana, sendo visto com reservas pela elite aristocrática quando o assunto era casamento. Assim, o triângulo amoroso do filme teve que passar por todos os crivos impostos pela sociedade de Antigo Regime. O mais curioso é que tal história, que tem um suposto fundo de verdade graças a um pequeno fragmento na correspondência de Schiller escrito para Caroline, se passa ao fim do século XVIII, quando a mais importante das revoluções liberais, a francesa, aniquilava a aristocracia feudal e tingia de sangue a Europa, para desgosto de nosso escritor, que havia conseguido uma vaga de professor de História na Universidade e cuja aula inaugural falava de um otimismo com relação ao futuro, inspirado por uma sociedade letrada amante da arte e da sabedoria. O desgosto de Schiller se baseou justamente no fato de que as execuções na guilhotina inspiravam o mesmo terror que as torturas dos interrogatórios impostos pela Santa Inquisição Espanhola.
O filme é regado a muitas correspondências, viagens, pequenas intrigas, jogos de esconde-esconde para encobrir adultérios. Mas é notório perceber que, com o tempo, a divisão de Schiller feita pelas irmãs desgasta a relação das duas. Novas famílias foram criadas, muito mais pobres pelo contexto histórico da época revolucionária, e com crises internas entre as irmãs e a mãe que, acometida de uma doença grave, não queria morrer com as filhas em guerra. Lamentavelmente, nosso escritor e poeta tinha uma doença respiratória grave e faleceu com apenas 45 anos. Apesar de tudo, sua vida amorosa parece ter sido muito rica e provavelmente tais querelas amorosas podem ter acontecido em maior ou menor intensidade. O filme foi um exercício de imaginação nesse sentido e deve ter tido uma pesquisa admirável.
A trama também mostra uma Alemanha mais romântica, aristocrática e fofa, pouco rude. Temos uma certa visão estereotipada dos alemães como um povo ríspido e rude, que só abrem um sorriso de orelha a orelha quando vencem a gente por 7 a 1. Mas a Alemanha do filme era mais suave, com personagens mais sensíveis, dentro de um espírito nascente e otimista de “aufklärung”, envolta numa visão mais romântica. Obviamente, há um momento mais ríspido ou outro como o tapa na cara que Caroline dá em seu companheiro ou no soco na mesa que a mãe dá quando exige que as filhas irmãs não briguem depois de sua morte. Mas dá para passar. Um filme com alemães mergulhados em florzinhas e delicadezas o tempo todo realmente me parece impossível. Visão estereotipada? Talvez...

De qualquer forma, “Duas Irmãs, Uma Paixão” é uma boa experiência cinematográfica. Um filme que caprichou na fotografia, no figurino e nas locações, sendo provavelmente bem caro por causa disso. Um filme feito com capricho e cuidado, que enche os olhos pela beleza de suas imagens. Uma história talvez um pouco longa e cansativa. Mas ainda assim, a película vale a pena.

Cartaz do filme no Brasil


Cartaz internacional, muito mais bonito... um Schiller nu, aquecido pelas irmãs...


Friedrich Schiller, um dos maiores escritores da literatura universal...


Triângulo amoroso peculiar...


Charlotte e Caroline. Na juventude, tudo são flores...


Irmãs muito unidas


Schiller em sua aula inaugural de História...


... e as mocinhas disfarçadas assistindo.


Marido de Caroline. Casamento por conveniência


Uma mãe temerosa com o futuro das filhas...

terça-feira, 3 de março de 2015

Resenha de Filme - Um Santo Vizinho

Um Santo Vizinho. Doce Drama Com Gostinho de Tragédia.
O “bem amado” Bill Murray está de volta. O lendário caça-fantasma estrela uma película muito legal intitulada “Um Santo Vizinho” (“St. Vincent”), que foi indicado para dois Globos de Ouro (melhor filme de comédia ou musical e melhor ator de comédia ou musical para Bill Murray). É uma história muito tocante regada a humor, drama e com pitadas de tragédia.
Temos aqui o personagem Vincent (interpretado por Murray), um velho rabugento, grosso e cheio de vícios que afundam sua vida totalmente. O cara vive sem grana, devendo para Deus e o mundo, sofrendo as piores consequências de seus atos. Ele tem um relacionamento meio barro, meio tijolo com uma prostituta, Daka (interpretada por Naomi Watts) que, para piorar a situação, está grávida e não consegue mais ser contratada para seus números de pole dance. Um belo dia, um caminhão de mudança quebra um galho em frente à casa de Vincent, que cai em cima de seu carro. É aí que conhecemos Maggie (interpretada por Melissa McCarthy) e seu filho pré-adolescente Oliver (interpretado por Jaeden Lieberher), que chegam para ser vizinhos de Vincent. O primeiro contato é, obviamente, pouco amistoso em virtude da destruição da árvore e do farol do carro de Vincent. Mãe e filho acabam de se afastar de marido e pai, em virtude das sucessivas traições que o esposo praticava. Assim, Maggie terá que dar muito duro trabalhando em exames e laudos de tomografia computadorizada. Enquanto isso, Oliver sofre bullying na escola católica em que foi matriculado, e tem sua chave, carteira e celular roubados na escola, tendo que ficar na casa de Vincent. O velho rabugento aceita, muito a contragosto, ser babá do garoto. E aí o filme continua em meio a muitas revelações e reviravoltas.
É um filme onde Murray destila todo o seu talento. Ele consegue ser, ao mesmo tempo, muito grosseiro e engraçado. O relacionamento de Vincent com Oliver é a tônica da coisa. O menino, bem criado pela mãe, vai conhecer através de Vincent uma série de atitudes consideradas pouco recomendáveis como as apostas em corridas de cavalos, ou acertar o nariz de um colega que o importuna. Apesar disso, Oliver  será o responsável por descortinar para nós o lado doce de Vincent. E vamos descobrindo outras virtudes do protagonista no transcorrer da película. A trama terá uma parte mais trágica, que não vou contar aqui, mas que servirá para unir mais os personagens.
Apesar de Murray ser o foco principal, não podemos deixar de destacar a bela atuação de Naomi Watts, uma atriz com cara de porcelana que faria perfeitamente aquelas mocinhas bem sem graças WASPs que vemos por aí. Fazer uma prostituta grávida foi um papel novo e revigorante, onde ela pôde explorar mais o seu talento. E a boa revelação Jaeden Lieberher no papel de Oliver. Sua interpretação contida como o garotinho bem criado era muito engraçada. Ele fazia uma criança com arroubos de adulto, mas sem parecer pedante. A coisa era cheia de simpatia e o menino convencia.

Se o filme parece uma comédia dramática mais convencional em sua primeira parte, a segunda parte do filme é bem mais interessante pelas reviravoltas que vemos. Por causa dessa segunda metade, “Um Santo Vizinho” foge do mais convencional e emociona. Vale muito a pena dar uma conferida, ainda se você é um fã de Bill Murray, que sempre é perfeito.

Cartaz do filme


Vincent, um velho rabugento


Com Oliver, Vincent mostrará seu lado bom


Com Daka, um relacionamento complexo


Maggie faz de tudo para ser uma mãe dedicada






segunda-feira, 2 de março de 2015

Resenha de Filme - Até Que A Sbórnia Nos Separe

Até Que A Sbórnia Nos Separe. Um Real País Fictício.
Lembram de uma dupla musical gaúcha altamente performática conhecida pela peça “Tangos e Tragédias”, lá em idos das décadas de 1980, 1990? Pois é, eles conseguiram fazer uma animação (antes tarde do que nunca) usando sua inspiração principal: o fictício país Sbórnia, uma ilhota com cara de leste europeu, ligada ao nosso continente por um fino istmo. Mas uma erupção vulcânica separou o pequeno país da América do Sul e, desde então, a ilha vaga sem rumo pelos oceanos do mundo, sendo esporadicamente vista por um ou outro navio aqui ou ali. A animação, muito bem feita por sinal, conta com as vozes do Tangos e Tragédias (Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, recentemente falecido) e figuras como André Abujamra (que, obviamente, também fez a música do filme junto com a dupla gaúcha), Arlete Salles e Fernanda Takai, a vocalista do grupo Pato Fu.
A grande sacação do filme é que o fictício país Sbórnia não é tão fictício assim. Ele era protegido do continente por um muro formado de tijolos feitos de cocô. Mas num jogo de futebol com machados, uma bola lançada para fora do estádio foi direta ao muro e o destruiu, criando um contato com o continente. Isso vai provocar o encontro de duas culturas, uma bem prosaica, que tem o hábito de se cumprimentar com lambidas e cuspes, e outra bem refinada. A alusão Brasil Subdesenvolvido – Mundo Desenvolvido é imediata. Mas o subdesenvolvimento também tem seus sabores. Uma bebida que deixava todo mundo ligado (uma alusão a gauchíssima erva-mate do chimarrão) foi descoberta por um grande empresário do continente, que vai transformar a bebida num refrigerante produzido em escala industrial. O sucesso de vendas foi tão grande que todo o estoque da bebida se esgotou em pouco tempo. Mas foi descoberta uma camada subterrânea de bebida, sugestivamente abaixo de uma camada de pré-sal, que passou a ser sugada pela grande fábrica. Como a bebida era muito volátil, a sua extração motivou a erupção vulcânica que separou a ilha do continente.

O filme é uma inteligente e divertida alusão à posição periférica do Brasil no mundo, onde a nossa cultura tupiniquim é vista pelo mundo desenvolvido em posição de inferioridade (os casos de falta de educação à mesa e os cumprimentos recheados de secreções), mas também um estranhamento mútuo entre o subdesenvolvido “tradicional” e o desenvolvido “moderno”. Há o caso das mocinhas do continente que chegam à praia da Sbórnia usando trajes sumários e dançando rock, o que assusta os sbornianos mais tradicionais, assim como a instalação de lojas cheias de roupas modernas para mulheres em plena Sbórnia que, apaixonadas pela nova moda, passaram a se vestir de acordo com as novas tendências e a maquiar o rosto, desvencilhando-se da sua forma tradicional de se vestir, onde todas ficavam cobertas. O embate tradição X modernidade acaba, inclusive, provocando implosões familiares. Logo, a interferência do capital estrangeiro, com a fábrica de refrigerante, e a imposição de hábitos vindos de fora acabaram provocando a destruição total de Sbórnia, tornando-o um país totalmente arrasado, vagando sem rumo e sem identidade pelo mundo. Uma nação de refugiados, como os muitos campos de refugiados que vemos pelo mundo afora, expatriados como os palestinos, um exemplo talvez ainda mais cristalino de Sbórnia, que nunca mais recuperou o seu território. A perda, por parte de Sbórnia, de sua identidade - e o inevitável que sua recuperação ocorra - se manifesta da forma mais dolorosa quando a mocinha do filme é vista idosa, vagando próxima ao lixão em que se transformou o vulcão. Se a tragédia é satirizada pelas crises amorosas de um dos integrantes do “Tangos e Tragédias”, essa tragédia final do filme – a destruição total de Sbórnia e o fato de que o país jamais se recuperará – é muito séria e nos serve de alerta, pois o Brasil pode sofrer (ou já sofre) hecatombe semelhante ou, dizendo em outras palavras, a zona e a desorganização de nosso país escondem a semente da destruição, tornando o Brasil uma “esbórnia”. Por essa reflexão, a animação tem um grande mérito e merece ser vista por muitas pessoas. E pensar que ela estava em apenas uma sala e um horário na cidade inteira. Adentrei a sala e só havia uma senhora assistindo. Com dez minutos de filme, ela caiu fora. Realmente vivemos numa esbórnia. Só tocando um tango argentino para lamentar toda essa tragédia.

 Cartaz do filme


Uma exótica dupla musical


Uma linda mocinha


Mulheres da Sbórnia todas cobertas (tradição)


Mulheres do continente (modernidade)


O grupo Tangos e Tragédias (Nico Nicolaievsky, recentemente falecido, à esquerda)




domingo, 1 de março de 2015

Resenha de Filme - Caminhos da Floresta

Caminhos Da Floresta. O Conto De Fadas Do Disney Doido.
Um filme fofo que resgata o gênero musical nas telonas. “Caminhos da Floresta” é inspirado numa peça da Broadway escrita por James Lapine e que mistura histórias de contos de fadas numa deliciosa intertextualidade. Podemos ver aqui personagens como Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Cinderela, João do Pé de Feijão , primeiro cada um em sua história original, para depois interagirem em novas possibilidades. Tudo isso tendo como pano de fundo uma floresta encantada, onde príncipes, princesas, crianças pobres e uma bruxa se relacionam, numa película produzida pela Disney.
O elenco conta com umas caras novinhas como Anna Kendrick, que interpreta a Cinderela, passando por James Corden (de “Apenas uma Chance”), Emily Blunt, até nomes consagrados como Johnny Deep, que faz o Lobo Mau, sendo uma pena que ele atuasse tão pouco, Chris Pine (o nosso Capitão Kirk), interpretando o príncipe da Cinderela (isso mesmo, aquele que acha o sapatinho) e a magistral presença de Meryl Streep, a bruxa má que interage com todos os personagens, mas originalmente é a bruxa de Rapunzel. É claro que Streep é A atriz do filme, o carro chefe do elenco, dando a maior credibilidade a todo o cast. Como foi dito no início desse texto, a Disney teve o mérito de resgatar nesse filme o gênero musical. Mas, infelizmente, de uma forma cada vez mais recorrente hoje em dia quando falamos de musicais. Não é um musical escrito especificamente para o cinema, mas mais uma adaptação cinematográfica de peça da Broadway. Esses musicais com gosto de teatro filmado, do estilo de “Os Miseráveis” e, em tempos mais pretéritos “Evita”, até alegram os amantes do gênero, tão carentes desse tipo de filme hoje em dia, mas se comparados com os verdadeiros musicais antigos, dos tempos da RKO e Metro, dos tempos de Gene Kelly e Fred Astaire, Leslie Caron ou Maurice Chevalier, não esquecendo de Jeanette McDonald e Nelson Eddy, com  números de canto e dança preciosamente filmados, os musicais de hoje obviamente deixam a desejar. O cinema é uma arte maior que um mero teatro filmado. Há até nesse filme os elementos cinematográficos que estamos acostumados como os efeitos especiais. Mas quando um filme é inspirado numa peça de teatro, usar de uma certa liberdade poética sempre é bom para se ampliar os horizontes cinematográficos da coisa.
A grande virtude de “Caminhos da Floresta”, entretanto, é o seu texto. Ele toma como base as histórias de contos de fadas clássicas, textos muito conhecidos. Mas a forma como os textos são imbricados e novas possiblidades apresentadas são fatores que dão grande qualidade à história. Temas inimagináveis como adultério, divórcio e morte mostram com grande eficiência que a máxima “E eles viveram felizes para sempre” nem sempre funciona. Aliás, a história é marcada por pequenas e grandes tragédias pessoais. E presenciamos personagens desamparados que até se agarram a uma vida comunitária para buscar forças e apoio uns nos outros. Esse foi um curioso elemento, uma espécie de “choque de realidade” no mundo dos sonhos.

Portanto, se “Caminhos da Floresta” ainda tem uma cara de peça de teatro como tem ocorrido com os musicais de cinema mais recentes, ele ainda é um filme que vale a pena ser assistido, pois conta com um bom elenco, trabalha com historinhas que recaem sobre o afetivo do grande público e consegue retirar delas novas perspectivas e possibilidades, tornando a coisa mais próxima de nosso mundo real. Uma intertextualidade muito criativa. Uma competente tensão entre a paráfrase e polissemia. Uma brincadeira literária que deu certo, resgatando o gênero musical, outrora tão amado, e que merecia um pouco mais de voz nos dias atuais.

Cartaz do filme


Um lobo mau performático


Cinderela e seu príncipe.


Que bruxona, hein?


Rapunzel, com tranças e tudo