Hoje vamos falar de uma grande artista do modernismo brasileiro: Anita Malfatti. Seguem algumas de suas obras e a biografia de sempre da Wikipédia...
Anita Malfatti
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Anita Malfatti
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Nascimento
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Morte
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Nacionalidade
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Ocupação
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O Homem Amarelo; Torso / Ritmo; A Estudante russa; A
Mulher de Cabelos Verdes; O Farol; Ventania; Tropical
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Movimento estético
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Anita Catarina Malfatti (São Paulo, 2 de dezembro
de 1889 — São Paulo,
6 de
novembro de 1964)
foi uma pintora,
desenhista, gravadora e professora brasileira.
Biografia
Filha do engenheiro italiano Samuel Malfatti e de mãe
norte-americana Betty Krug[1],
Anita Malfatti nasceu no ano de 1889, em São Paulo .
Segunda filha do casal, nasceu
com atrofia no braço e na mão direita. Aos três anos de idade foi levada pelos
pais a Lucca, na Itália, na
esperança de corrigir o defeito congênito. Os resultados do tratamento médico
não foram animadores e Anita teve que carregar essa deficiência pelo resto da
sua vida. Voltando ao Brasil, teve a sua disposição Miss Browne, uma governanta
inglesa, que a ajudou no desenvolvimento do uso da mão esquerda e no aprendizado
da arte e da escrita.
Iniciou seus estudos em 1897 no Colégio São José de freiras católicas, situado à
rua da Glória. Aí foi alfabetizada. Posteriormente passa a estudar em escolas
protestantes: na Escola Americana e em seguida no Mackenzie
College onde, em 1906,
recebe o diploma de normalista.
Surge a
pintora
Nesse meio tempo faleceu Samuel
Malfatti, esteio moral e financeiro da família. Sem recursos para o sustento
dos filhos, D. Betty passa a dar aulas particulares de idiomas e também de
desenho e pintura. Chegou a submeter-se à orientação do pintor Carlo
de Servi para com mais segurança ensinar suas discípulas. Anita acompanhava
as aulas e nelas tomava parte. Foi portanto sua própria mãe quem lhe ensinou os
rudimentos das artes plásticas. "Eu tinha 13 anos, e sofria porque não
sabia que rumo tomar na vida. Nada ainda me revelara o fundo da minha
sensibilidade[...]Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência:
sofrer a sensação absorvente da morte. Achava que uma forte emoção, que me
aproximasse violentamente do perigo, me daria a decifração definitiva da minha
personalidade. E veja o que fiz. Nossa casa ficava próxima da estação da Barra
Funda. Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina,
deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi
uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar,
a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu
via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para
sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à
pintura."Anita Malfatti.
Na
Alemanha
Anita pretendia estudar em Paris, mas sem a
ajuda do pai, parecia impossível, tendo em vista que sua avó vivia entrevada
numa cama e sua mãe passava o dia dando aulas de pintura e de idiomas.
Anita tinha umas amigas, as irmãs
Shalders, que iam viajar à Europa para estudar música. Assim
surgiu a ideia de acompanhá-las à Alemanha e seu
tio e padrinho, o engenheiro Jorge Krug, aceitou financiar a viagem.
Anita e as Shalders chegaram em Berlim em 1910, ano marcante na
história da Arte Moderna alemã.
"Os acontecimentos
precipitavam-se tão depressa, que eu me lembro de ter vivido como dentro de um
sonho. Nada do que acontecia se assemelhava com o que havia acontecido no
Brasil."
"Comprei incontinente uma
porção de tintas, e a festa começou" Anita Malfatti.
Berlim era então o grande centro
musical da Europa. O grupo Die Brucke fazia diversas exposições
expressionistas e foi na Alemanha que Anita travou contato com a vanguarda
europeia.
Acompanhando suas amigas às aulas
no centro musical, acabou recebendo a sugestão para estudar no ateliê do
artista Fritz Burger.
Fritz Burger era um retratista
que dominava a técnica impressionista. Foi o primeiro mestre de Anita. Ao
mesmo tempo, ela prestou os exames para ingressar na Real Academia de Belas
Artes o que efetivamente aconteceu no início do ano letivo.
Durante as férias de verão, Anita
e as amigas foram às montanhas de Harz, em Treseburg, região frequentada por pintores. Continuando sua
viagem, visitou a 4° Sonderbund, uma exposição que
aconteceu em Colônia na Alemanha, na qual conheceu trabalhos
de pintores modernos, incluindo-se o até hoje tão admirado Van Gogh.
Teve aulas também com Lovis
Corinth nome bem mais conhecido do que seu primeiro mestre. Corinth, um
tipo bem germânico, não tinha a menor paciência com seus alunos. Mas com Anita
era diferente. Talvez porque se identificasse com ela. Alguns anos antes
sofrera um AVC que, como sequela, tal como a aluna, lhe deixara alguma
dificuldade motora na mão direita.
Anita estava cada vez mais
interessada pela pintura expressionista, desejava aprender sua técnica. Em
1913, inicia aulas com o professor Ernest Bischoff Culm da
mesma escola de Corinth.
Com a instabilidade causada pela
aproximação da guerra, Anita Malfatti resolve deixar Berlim, antes passando por
Paris.
Primeira
exposição individual - 1914
"Voltando ao Brasil, só
me perguntavam pela Mona Lisa, pela glória da Renascença, e eu… nada"
"Minha família e meus
amigos, eram de opinião de que eu deveria continuar meus estudos de pintura.
Achavam meus quadros muito crus, mas, felizmente, muito fortes, o que prometia
para o futuro uma pintura suave, quando a técnica melhorasse" Anita
Malfatti.
São Paulo, 1914, Anita tinha 24
anos e, com mais de quatro anos de estudo na Europa, finalmente voltava para o
seio familiar. A cidade crescia, mas o ambiente artístico ainda era incipiente,
o gosto predominante ainda era pela arte acadêmica. Ao mostrar suas obras -
nada acadêmicas - Anita tentava explicar os avanços da arte na Europa, onde os
jovens haviam levado às últimas consequências as conquistas vindas do impressionismo.
Anita ainda continuava firme no
desejo de partir mais uma vez em viagem de estudos. Sem condições financeiras,
tentou pleitear uma bolsa junto ao Pensionato Artístico do
Estado de São Paulo. Por essa razão, montou no dia 23 de maio
de 1914, uma
exposição com obras de sua autoria, exposição essa que ficou aberta até meados
de junho.
O senador José de Freitas Valle foi visitar essa exposição.
Dependia dele a concessão da bolsa. Mas o influente político não gostou das
obras de Anita, chegando a criticá-las publicamente. Entretanto,
independentemente da opinião do senador, a bolsa não seria concedida. Notícias
do iminente início da guerra na Europa, fizeram com que o Pensionato as
cancelasse. Foi aí que, mais uma vez, financiada pelo tio, o engenheiro e
arquiteto Jorge Krug, Anita embarca para os Estados
Unidos.
Nos
Estados Unidos
"Aí começa o período
maravilhoso de minha vida. Entrei na Independent School of Art de Homer Boss,
quase mais filósofo que professor.{…}O maior progresso que fiz na minha vida
foi nesta ilha e nesta época de ambientes muito especiais. Eu vivia encantada
com a vida e com a pintura."
" Era a poesia plástica
da vida, era festa da forma e era a festa da cor" Anita Malfatti.
No início de 1915, Anita Malfatti
já se encontrava em Nova York e matriculada na tradicional Art Student's League.
Nessa escola, Anita ia de um professor a outro na tentativa de encontrar o
caminho que sonhava para seus trabalhos. Após três meses de estudos, desistiu
de qualquer curso de pintura ou desenho nessa instituição por demais
conservadora, reservando-a apenas para os estudos de gravura. Trazendo em sua
pintura a marcas do expressionismo, dificilmente Anita conseguiria
adaptar-se a uma academia de ensino tradicional. Sobre sua experiência na
instituição, escreveria de forma lacônica, mas muito claramente: "Fui
aos Estados Unidos, entrei numa academia para continuar meus estudos, e que
desilusão! O professor foi ficando com raiva de mim, e eu dele, até que um dia,
a luz brilhou de novo. Uma colega me contou na surdina que havia um professor
moderno, um grande filósofo, incompreendido e que deixava os alunos pintar à
vontade. Na mesma tarde procuramos e professor, claro". O tal
professor da Independent School of Art,
era Homer
Boss, artista hoje quase esquecido pelos estudiosos da arte norte-americana.
Nas férias de verão, Homer Boss
levou os alunos para pintar na costa do Maine, na ilha de Monhegan. Esse
Estado litorâneo mais ao nordeste, fronteira com o Canadá,
tornara-se há muito o refúgio dos artistas. Foi nessa pitoresca ilha que a
ainda não famosa aluna de Boss pintou, entre outras, a belíssima paisagem
intitulada O farol, uma de suas obras primas. Passado o verão, Anita
voltou à Independent School of Art. Em meados de 1916, preparava-se para voltar
ao Brasil.
De volta
ao Brasil
Em 1916, Anita se encontrava de
novo em casa, no aconchego familiar… "Eram caixões de obras de arte,
desenhos, gravuras e quadros de todos os tamanhos. Minha família e meus amigos
estavam curiosos para ver meus trabalhos. Mas que efeito!"Anita
Malfatti.
Nada daquilo que Anita trazia dos
Estados Unidos, se assemelhava à " pintura suave", nada daquilo
esperado e imaginado por seus amigos e parentes. Sua força masculina, que
causara estranheza na sua primeira individual em 1914, atingira o ponto máximo
de exagero. Anita inconscientemente, "rompera" com as regras da
pintura acadêmica tão apreciada por seus parentes. A surpresa e a incompreensão
foram inevitáveis. As obras que a pintora trouxe dos Estados Unidos, deixaram
em sua família uma sensação tão grotesca, que o mal estar durou por anos. É
fato que o assunto tornou-se "tabu" entre os membros da família e
Anita diria depois laconicamente:"Quando viram minhas telas, todos
acharam-nas feias, dantescas, e todos ficaram tristes, não eram os santinhos
dos colégios. Guardei as telas."
Depois, seria mais específica,
dizendo:"Ficaram desapontados e tristes. Meu tio, Dr. Jorge Krug, que
tanto interesse teve na minha educação, ficou muito aborrecido. Disse ele:'Isto
não é pintura, são coisas dantescas'" A expressão " coisas
dantescas", ficaria para sempre gravada na mente e no coração de Anita. A
incompreensão foi geral. Anita logo se deu conta do quanto suas telas, que
traduziam sua alma, estavam distantes das do ambiente acadêmico que a rodeava.
No mesmo depoimento de 1951,
a pintora lembraria:"Então, pela primeira vez em
minha vida, comecei a entristecer-me pois estava certa de que meu trabalho era
bom; tanto os modernos franceses como os americanos haviam dito
espontaneamente, desinteressadamente. Só desejei esconder meus quadros, já que,
para me consolar, ou outros acharam que eu podia pintar como quisesse. Eles
estavam desconsolados, porque me queriam bem. Entretanto eu sabia que aquela
crítica não tinha fundamento, especialmente porque estava dentro de um regime
completamente emocional. Eu nunca havia imitado a ninguém; só esperava com alegria
que surgisse, dentro da forma e da cor aparente a mudança; eu pintava num
diapasão diferente e era essa música da cor que me confortava e enriquecia
minha vida." Anita Malfatti.
Segunda
exposição individual - 1917
Em 1917 Anita resolveu promover
sua segunda exposição individual.
"A exposição da senhorita
Malfatti, toda ela de pintura moderna, apresenta um aspecto original e bizarro,
desde a disposição dos quadros aos motivos tratados em cada um deles. De uma
rápida visita ao catálogo, o visitante há de inteirar-se logo do artista que
vai observar. Tropical e Sinfonia colorida, são nomes que
qualquer pintor daria até a uma paisagem, menos a uma figura, como tão bem fez
a visão impressionista de sua autora. Essencialmente moderna, a arte da
senhorita Malfatti, se distancia consideravelmente dos métodos clássicos. A
figura ressalta, do fundo do quadro, como se nos apresentasse, em cada traço,
quase violento, uma aresta do caráter do retratado. A paisagem é larga,
iluminada, quase sempre tocada de uma luz crua, meridiana, que põe em relevo as
paredes alvas, num embaralhamento de vilas sertanejas, onde a minudência se
afasta para a mais forte impressão do conjunto."
Os acontecimentos a partir da
primeira semana se deram de forma tão rápida e surpreendente, que Anita só se
atreveria a narrá-los 34 anos depois:"A princípio foram os meus quadros
muito bem aceitos, e vendi, nos primeiros dias, oito quadros. Em geral depois
da primeira surpresa, acharam minha pintura perfeitamente normal. Qual não foi
a minha surpresa quando apareceu o artigo crítico de Monteiro
Lobato."Anita Malfatti.
"Há duas espécies de
artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência
disso fazem arte pura… Se Anita retrata uma senhora com cabelos geometricamente
verdes e amarelos, ela se deixou influenciar pela extravagância de Picasso e
companhia - a tal chamada arte moderna..". Monteiro Lobato.
Após a crítica de Lobato,
publicada em O Estado de S.Paulo, edição da tarde, em 20 de
dezembro de 1917,
com o título de A propósito da exposição Malfatti, as telas vendidas
foram devolvidas, algumas quase foram destruídas a bengaladas; o artigo gerou
uma verdadeira catilinária em artigos de jornais, contra Anita. A primeira voz
que se levantou em defesa da pintora, ainda que timidamente, foi a de Oswald
de Andrade. Num artigo de jornal, ele elogiou o talento de Anita e
parabenizou pelo simples fato dela não ter feito cópias. Pouco depois, jovens
artistas e escritores, começando a entender aquele jeito de pintar e possuídos
pelo desejo de mudança que as obras de Anita suscitaram, uniram-se a ela, como:
Mário e Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida.
Anita inicia estudos com o pintor
acadêmico Pedro Alexandrino no ano de 1919, e também com o
alemão George Fischer Elpons um pouco mais avançado do
que o velho mestre das naturezas mortas. Foi nessa ocasião que conheceu Tarsila
do Amaral que tinha aulas com os mesmos professores. Depois do pai, o tio
Jorge Krug, que a havia ajudado tanto, também faleceu e Anita precisou buscar
caminhos para vender suas obras. Pedro Alexandrino já era um pintor de renome e
vendia com muita facilidade seus trabalhos. Anita busca essa aproximação sendo
sua aluna, embora muitas interpretações apontem para a versão de que ela o
procurou para reestruturar sua pintura. Seus biógrafos acreditam que o artigo
de Monteiro Lobato foi agressivo e até maldoso e que deixou marcas profundas na
vida e na obra da artista. Mas, essa versão é contestada por alguns poucos,
pois ao ler na íntegra a crítica de Monteiro Lobato, verificamos que o título
original nunca foi "Paranoia ou Mistificação" e sim, "A
propósito da exposição Malfatti", e em muitos trechos Anita é elogiada
pelo crítico. Mas o certo é que Anita ficou arrasada com a crítica de Monteiro
Lobato. Ficou magoada pelo resto da vida, mas não o suficiente para destruir
sua força de mulher destemida e ousada. Apesar da mágoa, Anita ilustrou livros
de Monteiro Lobato e na década de 40 participou de um programa na Rádio
Cultura chamado "Desafiando os Catedráticos", juntamente com
Menotti Del Picchia e Monteiro Lobato. Os ouvintes telefonavam fazendo
perguntas para que o trio respondesse.
A Semana
de Arte Moderna de 1922
Após a enorme confusão causada
por Monteiro Lobato, a vida de Anita Malfatti começou a ter certa normalidade.
O tempo que se seguiu após a exposição, foi de assimilação do novo, da
percepção daquilo que até então não fora nem sonhado.
"Parece absurdo, mas
aqueles quadros foram a revelação. E ilhados na enchente que tomara conta da
cidade, nós, três ou quatro, delirávamos de êxtase diante de obras que se
chamavam O homem amarelo,
A mulher de cabelos verdes."
"Assisti bem de perto
essa luta sagrada e palavra que considero a vida artística de Anita Malfatti um
desses dramas pesados que o isolamento dos indivíduos apaga para sempre feito
segredo mortal.O povo passa, povo olha o quadro e tudo neste mostra vontade e
calma bem definidas.O povo segue seu caminho depois de ter aplaudido a obra boa
sem saber que poder de miserinhas cotidianas maiores que o Pão de Açúcar aquela
artista bebeu diariamente com o café da manhã" Mário de Andrade.
Após o período de recesso, a Semana de Arte Moderna, mais uma vez,
movimentou a vida artística insípida de São Paulo. Anita participou dela com 22
trabalhos.
"Recordo-me que no dia da
inauguração, o velho conselheiro Antônio
Prado, com grande espanto da comitiva, quis comprar meu quadro O homem amarelo, porém, Mário de
Andrade acabava de adquiri-lo. A plantinha havia vingado"
" Foi a noitada das
surpresas. O povo estava muito inquieto, mas não houve vaias. O teatro
completamente cheio. Os ânimos estavam fermentando; o ambiente eletrizante,
pois que não sabiam como nos enfrentar. Era o prenúncio da tempestade que
arrebentaria na segunda noitada"
Anita estava feliz entre o círculo
modernista, uma vez que ele vinha ao encontro de suas aspirações artísticas,
entraria também para o comentado grupo dos cinco.
A Europa
nos loucos anos 20
" Mário de Andrade lia
uma conferência. Ao terminar a leitura, o Dr. Freitas Valle num grande gesto
levantou-se de seu trono e encaminhou-se para mim, o que me assustou de tal
maneira que perdi o controle…Ele realmente chegou-se para junto de mim e disse
mesmo de verdade que eu poderia embarcar para a Europa em viagem de estudos…-
qualquer coisa me aconteceu, não sei se voei pelo telhado ou se afundei no
chão…então surgiu uma dama, eu não a conhecia, que me reconfortou e rindo-se
muito da minha confusão, afirmava ser aquilo verdade… Era Dona Olívia…" Dessa forma, Anita embarcava mais uma
vez, em viagem de estudos para a Europa, ou melhor dizendo, para Paris. Seriam cinco
anos de estudos pela bolsa do Pensionato. Este seria o último e o mais longo
período de Anita fora do Brasil. Em agosto de 1923, embarcando pelo vapor Mosella
rumo à França, aquela jovem baixa, com o lenço displicentemente esquecido sobre
a mão direita, tinha então 33 anos. Mário de Andrade que não conseguiu chegar a
tempo da partida de Anita, enviara-lhe o seguinte telegrama:
" Querida amiga choro de
raiva automóvel maldito escrevo hoje contando minha saudade e desespero perdoa
mil beijos nas tuas mãos divinas boa viagem felicidades. Mário. São
Paulo-21-8-1923.".A
guerra que perdurara por anos, pôs um ponto final aos hábitos e costumes da belle
époque. Foi fatal também para o academismo. Agora seus antigos espaços eram
ocupados pela arte moderna, que com grande vitória e sucesso se espalhara por
todos os cantos e continuava em expansão acelerada nos salões, galerias e
coleções. Há muito tempo, Paris atraia os artistas brasileiros - que eram e continuavam
acadêmicos - mas agora, nesse 1923, o modernismo brasileiro estava em Paris,
atualizando-se.
E Anita estava lá, na tentativa
incansável de encontrar-se. Apesar das muitas dúvidas que ainda tinha em
relação a que caminho seguir na sua arte, Anita não deixou de trabalhar, de
produzir. Logo no início do estágio francês, Anita parece ter se "
aconselhado" com o pintor Maurice
Denis, possivelmente atraída pelos aspectos da pintura religiosa. Nesse
último estágio, uma das características mais fortes de Anita, era a busca por
uma postura menos polêmica, em comparação com a época norte-americana. A
impressão que se tem, é de que ela procurava por uma espécie de classicismo
moderno. Na Escola de Paris, no pós-guerra, muitos pintores das
mais diversas origens, passavam pela experiência da releitura da arte de
séculos passados, como Picasso, por exemplo. Nessa fase, que pode-se dizer,
"um aprender de novo", Anita testou várias possibilidades, e
frequentemente produzia obras interessantes. Estudou muito, aprendeu muito, mas
perdeu um pouco, um pouco da sua audácia, com aquela urgência constante de
" se contar " à tela, agora se continha, obedecendo as ordens formais
da pintura. Nesses cinco anos, a crítica francesa notaria o trabalho da
pioneira, algumas telas como Interior de Mônaco", A dama de azul,
Interior de igreja e A mulher do Pará , seriam as obras mais
destacadas pela crítica internacional nesses anos de estudo e apresentação. A
crítica francesa seria unânime também nos elogios feitos aos desenhos :
"Seja: mas os desenhos? Sua personalidade única torna impossível toda
tentativa de apadrinhamento, mesmo suntuoso.[...]Quanto aos desenhos de nus, de
uma fatura tão pessoal, tão nítida, poucos artistas de escola moderna podem
apresentá-los tão notáveis. A crítica foi unânime a este respeito".
As telas interiores-exteriores,
ocupados por uma figura feminina, e as exteriores-interiores, também com
figuras femininas, seriam a produção mais válida e permanente da Anita do
estágio francês, com suas " mulheres" solitárias, reclinadas ao
balcão. Assim, Anita Malfatti entremostrava sua solidão.
Brasil
1928
No final de setembro de 1928, Anita já se
encontrava no Brasil.
"A ilustre artista mudou
muito a arte dela[...]Também[...] vem encontrar os companheiros antigos
bastante modificados e reforçados. Terá agora mais facilidade em ser
compreendida e estimada no seu valor." Mário de Andrade.
O ambiente artístico, encontrado
por Anita na volta, era bem diferente do que deixara em 1923; o grupo inicial
evoluíra muito, surgiam novos adeptos e novos movimentos. O número de artistas
plásticos também crescera. Na chegada, Mário de Andrade - o maior e melhor
amigo de Anita - noticiou imediatamente sua chegada, relembrando quem ela era:
"O nome de Anita Malfatti
já está definitivamente ligado à história das artes brasileiras pelo papel que
a pintora representou no início do movimento renovador contemporâneo. Dotada
duma inteligência cultivada e duma sensibilidade vasta, ela foi a primeira
entre nós a sentir a precisão de buscar os caminhos mais contemporâneos de
expressão artística, de que vivíamos totalmente divorciados, banzando num
tradicionalismo acadêmico que já não correspondia mais a nenhuma realidade
brasileira nem internacional".
Em 1929 abria em São Paulo, sua
quarta individual. Depois de fechar sua exposição, até 1932, Anita dedicou-se
ao ensino escolar. Retomou suas aulas na Escola Normal Americana e foi
trabalhar também na Escola Normal do Mackenzie College.
Podemos dividir as fases
artísticas de Anita Malfatti em três: 1- a primeira seria quando define sua
forma expressionista de pintar; 2- a segunda seria a das dúvidas de que caminho
seguir na arte; 3- dos 20,30 e início dos anos 40, quando depois da morte de
Mário de Andrade e de sua mãe, Dona Betty, seria transformada numa terceira
Anita Malfatti, e recolhida na sua chácara em Diadema. Iria finalmente, em paz
consigo mesma " pintar à vontade", " à seu modo". A
individual de 1945, prova essa unidade na pintura de Anita. A artista estava
decidida em seu caminho de paz, na sua reclusão.
"É verdade que eu já não
pinto o que pintava há 30 anos.Hoje, faço pura e simplesmente arte popular
brasileira. É preciso não confundir:arte popular com folclore…[...]eu pinto
aspectos da vida brasileira, aspectos da vida do povo. Procuro retratar os seus
costumes, os seus usos, o seu ambiente. Procuro transportá-los vivos para as
minhas telas. Interpretar a alma popular[...]eu não pinto nem folclore, nem
faço primitivismo. Faço arte popular brasileira"
Em 1964, na cidade de São Paulo,
Anita Malfatti morre, mas deixa um precioso legado para a arte brasileira
introduzindo um novo estilo de pintar que, rejeitado a princípio, foi aos
poucos adotado por toda uma geração de artistas. Marco divisório entre o antigo
e o novo, a obra de Anita constitui uma inestimável contribuição para a cultura
brasileira.
Representações
da artista em outras mídias
- Na minissérie Um Só Coração (2004), de Maria Adelaide
Amaral - Rede Globo, Anita Malfatti, foi representada pela
atriz Betty Gofman.
- Anita Malfatti - documentário - Premio Estímulo de
Curta-metragem da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo em 2001 -
de Luzia Portinari Greggio.
- Ilustrou o livro Cafundó da Infância,
de Carlos Lébeis em 1936
Bibliografia
- ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita
ao museu. São Paulo: Perspectiva, 1976.
- AMARAL, Aracy (Org.). Artes plásticas na
Semana de 22. São Paulo: Perspectiva, 1970.
- ANDRADE, Mário de. Cartas a Anita Malfatti-
Organização Marta Rossetti Batista. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
1989.
- BATISTA, Marta Rossetti - Anita no
tempo e no espaço: biografia e estudo da obra. São Paulo: Ed.34/EDUSP,
2006.
- CHIARELLI, Tadeu. Um jeca nos vernissages:
Monteiro Lobato e o desejo de uma arte nacional no Brasil. São Paulo:
EDUSP, 1995.
- GREGGIO, Luzia Portinari. Anita Malfatti –
Tomei a liberdade de pintar a meu modo. São Paulo: Magma Cultural Ed.
, 2007, 150 ilustrações.
- GREGGIO, Luzia Portinari (curadora) -
Catalogo da Exposição: "Anita Malfatti - 120 anos de nascimento -
CCBB de Brasilia, 2010. 160 pg. 120 ilustrações.
- LOBATO,
Monteiro. Paranoia ou mistificação?. In: Ideias de Jeca Tatu,
São Paulo:Monteiro Lobato & Cia., 3ª edição,1922.
- BÉNÉZIT, E. Dictionnaire, etc.. Paris: Gründ, 1999.
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário
crítico da pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1989.
- CAMARGO, Ani Perri. Anita Malfatti: a
festa da cor. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2009.
- MALFATTI, Doris. Minha tia Anita Malfatti.
São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2009.
- PONTUAL, Roberto - "Entre 2 seculos -
arte brasileira na Coleção Gilberto Chateaubriand", Rio de Janeiro,
Ed. JB, 1987
- CAMARGOS, Márcia. Semana de 22 entre vaias
e aplausos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003 (1ª reimpressão).